Cat-1
Cat-2
Cat-3
Cat-4
Categoria: Jam Session
Onde está o lado crítico da música brasileira?
Em homenagem a Sir George Martin, "O Quinto Beatle": o que faz um produtor musical?
Curta >>> Pictoline Brasil
Vida de músico não é fácil, blá blá blá que todo mundo está careca de saber. O negócio é se antecipar aos perrengues e passar o mínimo de estresse possível, principalmente se você depende da música para pagar suas contas. Se você está entrando nesta vida, já devem ter lhe avisado que não é um mar de flores, mas se é o que você gosta realmente de fazer, as dificuldades não serão maiores que as satisfações, como em qualquer trabalho. Está em dúvida? Faça um breve exercício mental e... Ops, vamos deixar essa para uma das dicas. Leia, pense bem, e força na estrada, jovem Joe!
Obs.: Não se sinta ofendido(a) por algo descrito abaixo que você não fez/faz. Se a carapuça não servir, não há por que ficar de mimimi. Já se você fez/faz... Bem... Vamos tentar melhorar, né?
1 - Estabeleça claramente qual é a sua
Seja realista: você é alguém que pretende viver da música (leia-se preocupar-se em tocar sempre para pagar as próprias contas) ou ela para você é um hobby (leia-se aquele que toca quando quiser, apenas para se satisfazer, mas não gostaria de ter isso como uma obrigação)? Não há problema nenhum em ser a segunda opção, pois você deve gostar muito da música a ponto de deixar de ser um mero consumidor para ser um fornecedor desse serviço. Mas há um porém: se você, por não precisar da música para comer, toca até de graça, por satisfação pessoal, saiba que você mal-acostuma os donos de estabelecimentos a pagar pouco aos que vivem disso e batalham por uma vida digna. Afinal, se o Zezinho toca três horas por R$50,00, por que diabos o Josefino deveria receber R$300,00? O verdadeiro músico acaba sendo nivelado por baixo, como qualquer aventureiro que quer se exibir para os amigos enquanto assassina canções alheias. Se você topa tocar de graça, reúna seus amigos e toque para eles, não estrague o campo de trabalho de quem leva a música a sério. É justamente esse tipo de pessoa que está no início do processo de desvalorização do bom músico.
2 - Entenda que a maioria das pessoas pensa que ser músico é simplesmente fácil.
Já ouvi isso de muita gente: "você tem a vida boa, né? É só tocar um pouquinho e receber a grana". As pessoas comuns simplesmente não entendem que música é algo que demanda estudo, investimentos, planejamentos, negociações, ações de marketing e tudo o mais. Elas, sabe-se lá o porquê, não entendem que o "tocar" é apenas a ponta do iceberg e pensam que o processo se resume àquilo. Por isso sua postura não deve colaborar com isso. Você se preparou por horas, dias, meses a fio para chegar ao estágio em que está. Você é um profissional como qualquer outro, cujo trabalho se divide em cerca de 85% de forma solitária ou "escondida", e 15% "visível" ao público-alvo. Quando alguém, algum dono de restaurante, por exemplo, falar uma bobagem como essa, faça o paralelo com o próprio estabelecimento: "O meu trabalho é igual o seu. Ou será que você só começa a trabalhar quando abre as portas do restaurante?". Respeite a profissão dos outros, mas encontre meios de se fazer respeitar também, ou simplesmente não o farão.
3 - Invista em seu equipamento e esqueça o dos outros
Não se iluda: dificilmente você encontrará um lugar com bons equipamentos. A vida real é microfone pirata que não vale um real furado, mesa de som de oito canais, onde só funcionam três (isso quando existe a enorme sensibilidade para se comprar uma), caixas horríveis e a palavra "retorno" remete apenas às aulas de trânsito no DETRAN. Compre seu microfone, depois de uma boa pesquisa, seus cabos, fones e o que mais sentir necessidade. Leve suas extensões de tomada e tome sempre o cuidado de não deixar misturarem com as do estabelecimento. Pense em alguma forma de marcar seus cabos, por exemplo. O objetivo é melhorar ao máximo o som que sai das caixas. Muitas vezes não dá para fazer milagre com o equipamento dos próprios estabelecimentos porque, para boa parte deles, isso não é importante o suficiente para um bom investimento. A esmagadora maioria dos donos de estabelecimento é capaz de gastar uma fortuna em tudo, e reluta em comprar um mixerzinho de R$300,00. Isso porque, na cabeça dele, o músico é o cara que faz o "milagre" acontecer, e isso é problema todo dele. Seu equipamento é seu maior aliado, e fazer feio por causa de um microfone que deveria estar no lixo é algo totalmente desnecessário. Lembre-se: é sua imagem, sua reputação, seu trabalho que está à mostra. Claro, use o bom senso. Não vá virar um burro de carga. Faça o possível e razoável.
4 - Lembre, relembre, re-relembre datas já marcadas
Há milênios o homem inventou a escrita. Logo depois veio o papel. E de lá pra cá o negócio deu muito certo. Nem tanto: o simples ato de escrever numa agenda, calendário ou em qualquer lugar que no dia X a pessoa Y tocará no bar Z parece ser de enorme complexidade para algumas pessoas, sejam músicos ou donos de estabelecimento. Já passei por inúmeras vezes pela desagradável (isso para ser bem suave) situação de ter uma data marcada em algum lugar e, na última hora, descobrir que outra pessoa está sendo divulgada para meu horário. O dono do bar simplesmente ESQUECEU que havia marcado comigo, ou com o outro. Eles não usam uma bendita agenda para organizar suas datas. Isso é MUITO complicado para quem vive da música: uma sexta feira perdida significa uma conta a menos sendo paga, e eles não estão nem um pouco preocupados com esse detalhe. Isso olhando pelo meu lado, de músico, mas sei que muitos músicos também fazem esta sacanagem com os contratantes. Estamos falando de trabalho, e isso exige um MÍNIMO de organização. Eu tenho um calendário (daqueles de mesa, que os bancos distribuem no início do ano) onde anoto todos os meus shows. Assim, nunca dei mancada com alguém. Faça isso: ANOTE e CONSULTE. Suas mãos não apodrecerão e você evitará transtornos. Quando o problema for o outro, faça como eu: dê um calendário de presente, naquele tom de "brincadeira-mas-estou-falando-sério". E não se sinta mal por ser chato com a pessoa ao ficar relembrando da sua data. Pior ainda é perder o cachê de uma noite por pura falta de organização.
Atualização (21/09/2016): Hoje eu uso o Google Calendar, no tablet, smartphone e no calendário do Windows, sincronizado com todos os membros da minha banda: quando uma nova data é marcada, todos já ficam cientes automaticamente. Isso é uma mão na roda!
5 - Seja pontual
Isto é o básico do básico e, teoricamente, nem deveria ser mencionado, porque é uma questão de educação. Marcou 21h no Bar do Estrôncio? Pense! Se a apresentação começa nesse horário, você não é o Paul McCartney para se dar o luxo de simplesmente chegar, dar boa noite e começar. Chegue um tempo antes, ao menos meia hora, a depender da quantidade de equipamento e do que deve ser feito antes de começar. Comece na hora prevista, termine na hora prevista. Isso é ser profissional, e a falta desse profissionalismo é justamente do que todo brasileiro adora reclamar. Comece olhando para si mesmo antes de apontar alguém. Claro, atrasos também são fator-chave para deixar de ser chamado novamente, mas encare a pontualidade principalmente como marketing pessoal e respeito ao contratante e ao público.
6 - Não beba em serviço
A música confunde a todos: público, contratante e o próprio músico, quando ele não tem uma ideia clara do que é ser músico. Você é um PRESTADOR DE SERVIÇO, assim como o garçom, o segurança, o taxista, o mestre de cerimônias, o jornalista, o advogado, o médico. Vendemos algo não-palpável com o agravante de ser algo que, estranhamente, É PRAZEROSO! Não devia ser assim, mas é uma grande exceção à regra trabalhar com algo em que se gosta. No meu caso, algo em que se ame. O Advogado não trabalha bêbado, o médico muito menos, o garçom idem. Por que diabos seria diferente com você? A não ser que você já seja um rock star (e mesmo estes não se justificam, ao meu ver), não beba em serviço. A qualidade do que você entrega ao público cai, seu instrumento de trabalho é agredido (no caso de ser você o cantor) e você pode se queimar bonito. Tudo bem, você só consegue relaxar depois de uma dose, um copo? Beba essa dose, esse copo, e já passe para a água ou suco. Não exija profissionalismo dos outros se ainda não aprendeu a sê-lo. Trabalho é trabalho e quem está ali para beber são os clientes. Você e todos os funcionários do estabelecimento estão lá para trabalhar. No dia seguinte, quando você sair às ruas, o público estará no papel do prestador de serviço e você será o cliente a ser agradado, então, nem venha com mimimi de baixa autoestima. A diferença entre você e ele é apenas uma questão de horário de trabalho. Você não é inferior por estar trabalhando na hora de lazer dos outros. Um lembrete: não há nada mais deprimente do que ter de deixar o cachê inteiro no bar para pagar sua bebedeira, a não ser que você não encare a música de forma profissional.
7 - respeite seu repertório
"Toca Raul!" "Toca telegrama!" "Toca aquela do Djavan!" "Toca sertanejo!" são frases que sempre são ouvidas em nosso ambiente de trabalho. Antigamente se tinha a ideia de que o músico deve tocar o que o público pede. Como eu comecei em palcos com banda e depois fui para barzinhos, tenho sempre em mente que minha apresentação é um show. Ninguém pede ao Frejat para tocar "Chão de Giz" nos shows, por que pedem a mim? Justamente por causa dessa ideia antiquada e errada de que o músico é uma espécie de escravo-animador-puxa-saco do público. Como dito no ítem 2, nosso ramo demanda um trabalhoso preparo. Se você tenta tocar uma música que não conhece direito, apenas para agradar à jovem de minissaia que pediu uma música daquela dupla "famosa" que você nunca ouviu falar, qual a lógica de atender esse pedido? Você vai apenas "queimar seu filme". Seja educado e diga, num caso como este, que esta música você não toca, mas (caso você realmente veja como uma boa incrementação ao seu repertório) na próxima vez ela será atendida. Quando me pedem sertanejo, eu apenas digo que não toco esse estilo. Daí respondem, às vezes: "Mas você tem que tocar o que o povo gosta". E eu digo: "Nem tudo o que o povo gosta faz meu estilo, sinto muito, mas não dá." Seja educado(a), mas firme. É você quem está no comando. Se a música estiver em seu repertório, ótimo: você terá um fã na plateia e potencial comprador do seu CD.
8 - Invista em suas próprias músicas
O público adora ouvir suas músicas preferidas sendo bem tocadas por alguém de carne e osso. Quando isso acontece, logo perguntam por CD, com aquelas músicas. Nessa hora eu entro numa discussão interna: "se eu gosto de 'Wish You Were Here', do Pink Floyd, por que eu deveria preferir um CD com a voz do cara que está tocando ao invés de um com a do David Gilmour?" Bom, até hoje não tenho bem uma opinião formada sobre isso, mas o fato é que isso existe e muita gente rejeita meu CD autoral quando descobre que não é "Wish You Were Here" que está lá, mas também existem os que valorizam o trabalho autoral e fazem questão de comprar o CD. Isso é um grande incentivo. Não sei vocês, mas uma das coisas mais prazerosas desse trabalho é ver que o público curtiu a música que eu mesmo escrevi. A minha letra, minha melodia fez algum sentido para aquele desconhecido. Queira ou não, ter músicas próprias faz você subir alguns degraus de conceito. Você cria conteúdo, não apenas reproduz de forma rasa. Crie coragem para tirar sua música do papel. Se estiver inseguro(a), mostre a outros músicos, pedindo opiniões sinceras. Trabalhe-a em casa. Intercale com covers, e prefira tocá-la logo após algum que você faça muito bem e que o público goste. Você já terá a atenção dele, daí é só anunciar que a próxima será sua e tocar. Aliás, nunca se esqueça de anunciar suas músicas: a maioria ouvirá pela primeira vez e não tem a menor obrigação de adivinhar quais são covers e quais são autorais. Tocando suas músicas você as aperfeiçoa. E isso é um dos principais caminhos para uma futura gravação de sucesso.
9 - Não tenha medo de ousar
Uma das coisas que mais me irritam é a mesmice. E a boa parte do público também. Mas a inércia é confortável e a maior prova disso é que várias músicas já são reconhecidas como "música de barzinho". Você não quer ser só mais um... Ou quer? Pense em inovar, usar instrumentos diferentes, samples, tons e roupagens diferentes para as músicas, convidar outros músicos para participar... Há uma infinidade de possibilidades na música, e você não precisa ser igual a todo mundo. Essa mentalidade, aliás, será sua melhor qualidade e, caso você faça bem feito, será reconhecido por isto. Algo que adoro ouvir é: "Vocês não tocam como todo mundo que faz barzinho. Vocês fazem um show de verdade". Isto, aliás, pede o próximo item. Resumindo, dê sua personalidade ao seu trabalho. Não se esqueça que a música é, antes de tudo, uma forma de expressão.
10 - Não se deslumbre com elogios, nem o inverso
Elogio é bom e todo mundo gosta, mas fique sempre atento(a), pois é um terreno perigoso. O elogio massageia o ego e pode salvar seu dia, mas tenha sempre em mente que você NÃO é o melhor do mundo no que faz. Se o elogio chegou a você é porque seus esforços anteriores deram certo. Isso mostra que você está no caminho correto e pode confiar em suas ideias. Continue se esforçando e jamais perca a humildade. A arrogância é facilmente percebida pelas pessoas, que não costumam perdoá-la. Mesmo os arrogantes odeiam a arrogância dos outros. Guarde com carinho os elogios, como uma espécie de recompensa, mas também desconfie quando for exagerado: muita gente simplesmente não consegue ser sincera e sempre é mais fácil elogiar que criticar. Sobre as críticas, use o mesmo cuidado: elas virão com muito menos frequência que os elogios, claro, mas saiba diferenciar uma crítica construtiva e sincera de mero despeito. Tente tornar útil toda e qualquer crítica. É uma arma que você recebe de graça para encontrar seus pontos fracos e anulá-los ou, ao menos, minimizá-los. Acima de tudo, tenha senso crítico sobre você mesmo(a): o que nesse elogio ou crítica é realmente verdade sobre você? Olhe-se no espelho e não se engane: o mundo inteiro pode estar errado e você certo, mas também pode acontecer o contrário.
Talvez este post terá uma parte 2. =)
Obs.: Não se sinta ofendido(a) por algo descrito abaixo que você não fez/faz. Se a carapuça não servir, não há por que ficar de mimimi. Já se você fez/faz... Bem... Vamos tentar melhorar, né?
1 - Estabeleça claramente qual é a sua
Seja realista: você é alguém que pretende viver da música (leia-se preocupar-se em tocar sempre para pagar as próprias contas) ou ela para você é um hobby (leia-se aquele que toca quando quiser, apenas para se satisfazer, mas não gostaria de ter isso como uma obrigação)? Não há problema nenhum em ser a segunda opção, pois você deve gostar muito da música a ponto de deixar de ser um mero consumidor para ser um fornecedor desse serviço. Mas há um porém: se você, por não precisar da música para comer, toca até de graça, por satisfação pessoal, saiba que você mal-acostuma os donos de estabelecimentos a pagar pouco aos que vivem disso e batalham por uma vida digna. Afinal, se o Zezinho toca três horas por R$50,00, por que diabos o Josefino deveria receber R$300,00? O verdadeiro músico acaba sendo nivelado por baixo, como qualquer aventureiro que quer se exibir para os amigos enquanto assassina canções alheias. Se você topa tocar de graça, reúna seus amigos e toque para eles, não estrague o campo de trabalho de quem leva a música a sério. É justamente esse tipo de pessoa que está no início do processo de desvalorização do bom músico.
2 - Entenda que a maioria das pessoas pensa que ser músico é simplesmente fácil.
Já ouvi isso de muita gente: "você tem a vida boa, né? É só tocar um pouquinho e receber a grana". As pessoas comuns simplesmente não entendem que música é algo que demanda estudo, investimentos, planejamentos, negociações, ações de marketing e tudo o mais. Elas, sabe-se lá o porquê, não entendem que o "tocar" é apenas a ponta do iceberg e pensam que o processo se resume àquilo. Por isso sua postura não deve colaborar com isso. Você se preparou por horas, dias, meses a fio para chegar ao estágio em que está. Você é um profissional como qualquer outro, cujo trabalho se divide em cerca de 85% de forma solitária ou "escondida", e 15% "visível" ao público-alvo. Quando alguém, algum dono de restaurante, por exemplo, falar uma bobagem como essa, faça o paralelo com o próprio estabelecimento: "O meu trabalho é igual o seu. Ou será que você só começa a trabalhar quando abre as portas do restaurante?". Respeite a profissão dos outros, mas encontre meios de se fazer respeitar também, ou simplesmente não o farão.
3 - Invista em seu equipamento e esqueça o dos outros
Não se iluda: dificilmente você encontrará um lugar com bons equipamentos. A vida real é microfone pirata que não vale um real furado, mesa de som de oito canais, onde só funcionam três (isso quando existe a enorme sensibilidade para se comprar uma), caixas horríveis e a palavra "retorno" remete apenas às aulas de trânsito no DETRAN. Compre seu microfone, depois de uma boa pesquisa, seus cabos, fones e o que mais sentir necessidade. Leve suas extensões de tomada e tome sempre o cuidado de não deixar misturarem com as do estabelecimento. Pense em alguma forma de marcar seus cabos, por exemplo. O objetivo é melhorar ao máximo o som que sai das caixas. Muitas vezes não dá para fazer milagre com o equipamento dos próprios estabelecimentos porque, para boa parte deles, isso não é importante o suficiente para um bom investimento. A esmagadora maioria dos donos de estabelecimento é capaz de gastar uma fortuna em tudo, e reluta em comprar um mixerzinho de R$300,00. Isso porque, na cabeça dele, o músico é o cara que faz o "milagre" acontecer, e isso é problema todo dele. Seu equipamento é seu maior aliado, e fazer feio por causa de um microfone que deveria estar no lixo é algo totalmente desnecessário. Lembre-se: é sua imagem, sua reputação, seu trabalho que está à mostra. Claro, use o bom senso. Não vá virar um burro de carga. Faça o possível e razoável.
4 - Lembre, relembre, re-relembre datas já marcadas
Há milênios o homem inventou a escrita. Logo depois veio o papel. E de lá pra cá o negócio deu muito certo. Nem tanto: o simples ato de escrever numa agenda, calendário ou em qualquer lugar que no dia X a pessoa Y tocará no bar Z parece ser de enorme complexidade para algumas pessoas, sejam músicos ou donos de estabelecimento. Já passei por inúmeras vezes pela desagradável (isso para ser bem suave) situação de ter uma data marcada em algum lugar e, na última hora, descobrir que outra pessoa está sendo divulgada para meu horário. O dono do bar simplesmente ESQUECEU que havia marcado comigo, ou com o outro. Eles não usam uma bendita agenda para organizar suas datas. Isso é MUITO complicado para quem vive da música: uma sexta feira perdida significa uma conta a menos sendo paga, e eles não estão nem um pouco preocupados com esse detalhe. Isso olhando pelo meu lado, de músico, mas sei que muitos músicos também fazem esta sacanagem com os contratantes. Estamos falando de trabalho, e isso exige um MÍNIMO de organização. Eu tenho um calendário (daqueles de mesa, que os bancos distribuem no início do ano) onde anoto todos os meus shows. Assim, nunca dei mancada com alguém. Faça isso: ANOTE e CONSULTE. Suas mãos não apodrecerão e você evitará transtornos. Quando o problema for o outro, faça como eu: dê um calendário de presente, naquele tom de "brincadeira-mas-estou-falando-sério". E não se sinta mal por ser chato com a pessoa ao ficar relembrando da sua data. Pior ainda é perder o cachê de uma noite por pura falta de organização.
Atualização (21/09/2016): Hoje eu uso o Google Calendar, no tablet, smartphone e no calendário do Windows, sincronizado com todos os membros da minha banda: quando uma nova data é marcada, todos já ficam cientes automaticamente. Isso é uma mão na roda!
5 - Seja pontual
Isto é o básico do básico e, teoricamente, nem deveria ser mencionado, porque é uma questão de educação. Marcou 21h no Bar do Estrôncio? Pense! Se a apresentação começa nesse horário, você não é o Paul McCartney para se dar o luxo de simplesmente chegar, dar boa noite e começar. Chegue um tempo antes, ao menos meia hora, a depender da quantidade de equipamento e do que deve ser feito antes de começar. Comece na hora prevista, termine na hora prevista. Isso é ser profissional, e a falta desse profissionalismo é justamente do que todo brasileiro adora reclamar. Comece olhando para si mesmo antes de apontar alguém. Claro, atrasos também são fator-chave para deixar de ser chamado novamente, mas encare a pontualidade principalmente como marketing pessoal e respeito ao contratante e ao público.
6 - Não beba em serviço
A música confunde a todos: público, contratante e o próprio músico, quando ele não tem uma ideia clara do que é ser músico. Você é um PRESTADOR DE SERVIÇO, assim como o garçom, o segurança, o taxista, o mestre de cerimônias, o jornalista, o advogado, o médico. Vendemos algo não-palpável com o agravante de ser algo que, estranhamente, É PRAZEROSO! Não devia ser assim, mas é uma grande exceção à regra trabalhar com algo em que se gosta. No meu caso, algo em que se ame. O Advogado não trabalha bêbado, o médico muito menos, o garçom idem. Por que diabos seria diferente com você? A não ser que você já seja um rock star (e mesmo estes não se justificam, ao meu ver), não beba em serviço. A qualidade do que você entrega ao público cai, seu instrumento de trabalho é agredido (no caso de ser você o cantor) e você pode se queimar bonito. Tudo bem, você só consegue relaxar depois de uma dose, um copo? Beba essa dose, esse copo, e já passe para a água ou suco. Não exija profissionalismo dos outros se ainda não aprendeu a sê-lo. Trabalho é trabalho e quem está ali para beber são os clientes. Você e todos os funcionários do estabelecimento estão lá para trabalhar. No dia seguinte, quando você sair às ruas, o público estará no papel do prestador de serviço e você será o cliente a ser agradado, então, nem venha com mimimi de baixa autoestima. A diferença entre você e ele é apenas uma questão de horário de trabalho. Você não é inferior por estar trabalhando na hora de lazer dos outros. Um lembrete: não há nada mais deprimente do que ter de deixar o cachê inteiro no bar para pagar sua bebedeira, a não ser que você não encare a música de forma profissional.
7 - respeite seu repertório
"Toca Raul!" "Toca telegrama!" "Toca aquela do Djavan!" "Toca sertanejo!" são frases que sempre são ouvidas em nosso ambiente de trabalho. Antigamente se tinha a ideia de que o músico deve tocar o que o público pede. Como eu comecei em palcos com banda e depois fui para barzinhos, tenho sempre em mente que minha apresentação é um show. Ninguém pede ao Frejat para tocar "Chão de Giz" nos shows, por que pedem a mim? Justamente por causa dessa ideia antiquada e errada de que o músico é uma espécie de escravo-animador-puxa-saco do público. Como dito no ítem 2, nosso ramo demanda um trabalhoso preparo. Se você tenta tocar uma música que não conhece direito, apenas para agradar à jovem de minissaia que pediu uma música daquela dupla "famosa" que você nunca ouviu falar, qual a lógica de atender esse pedido? Você vai apenas "queimar seu filme". Seja educado e diga, num caso como este, que esta música você não toca, mas (caso você realmente veja como uma boa incrementação ao seu repertório) na próxima vez ela será atendida. Quando me pedem sertanejo, eu apenas digo que não toco esse estilo. Daí respondem, às vezes: "Mas você tem que tocar o que o povo gosta". E eu digo: "Nem tudo o que o povo gosta faz meu estilo, sinto muito, mas não dá." Seja educado(a), mas firme. É você quem está no comando. Se a música estiver em seu repertório, ótimo: você terá um fã na plateia e potencial comprador do seu CD.
8 - Invista em suas próprias músicas
O público adora ouvir suas músicas preferidas sendo bem tocadas por alguém de carne e osso. Quando isso acontece, logo perguntam por CD, com aquelas músicas. Nessa hora eu entro numa discussão interna: "se eu gosto de 'Wish You Were Here', do Pink Floyd, por que eu deveria preferir um CD com a voz do cara que está tocando ao invés de um com a do David Gilmour?" Bom, até hoje não tenho bem uma opinião formada sobre isso, mas o fato é que isso existe e muita gente rejeita meu CD autoral quando descobre que não é "Wish You Were Here" que está lá, mas também existem os que valorizam o trabalho autoral e fazem questão de comprar o CD. Isso é um grande incentivo. Não sei vocês, mas uma das coisas mais prazerosas desse trabalho é ver que o público curtiu a música que eu mesmo escrevi. A minha letra, minha melodia fez algum sentido para aquele desconhecido. Queira ou não, ter músicas próprias faz você subir alguns degraus de conceito. Você cria conteúdo, não apenas reproduz de forma rasa. Crie coragem para tirar sua música do papel. Se estiver inseguro(a), mostre a outros músicos, pedindo opiniões sinceras. Trabalhe-a em casa. Intercale com covers, e prefira tocá-la logo após algum que você faça muito bem e que o público goste. Você já terá a atenção dele, daí é só anunciar que a próxima será sua e tocar. Aliás, nunca se esqueça de anunciar suas músicas: a maioria ouvirá pela primeira vez e não tem a menor obrigação de adivinhar quais são covers e quais são autorais. Tocando suas músicas você as aperfeiçoa. E isso é um dos principais caminhos para uma futura gravação de sucesso.
9 - Não tenha medo de ousar
Uma das coisas que mais me irritam é a mesmice. E a boa parte do público também. Mas a inércia é confortável e a maior prova disso é que várias músicas já são reconhecidas como "música de barzinho". Você não quer ser só mais um... Ou quer? Pense em inovar, usar instrumentos diferentes, samples, tons e roupagens diferentes para as músicas, convidar outros músicos para participar... Há uma infinidade de possibilidades na música, e você não precisa ser igual a todo mundo. Essa mentalidade, aliás, será sua melhor qualidade e, caso você faça bem feito, será reconhecido por isto. Algo que adoro ouvir é: "Vocês não tocam como todo mundo que faz barzinho. Vocês fazem um show de verdade". Isto, aliás, pede o próximo item. Resumindo, dê sua personalidade ao seu trabalho. Não se esqueça que a música é, antes de tudo, uma forma de expressão.
10 - Não se deslumbre com elogios, nem o inverso
Elogio é bom e todo mundo gosta, mas fique sempre atento(a), pois é um terreno perigoso. O elogio massageia o ego e pode salvar seu dia, mas tenha sempre em mente que você NÃO é o melhor do mundo no que faz. Se o elogio chegou a você é porque seus esforços anteriores deram certo. Isso mostra que você está no caminho correto e pode confiar em suas ideias. Continue se esforçando e jamais perca a humildade. A arrogância é facilmente percebida pelas pessoas, que não costumam perdoá-la. Mesmo os arrogantes odeiam a arrogância dos outros. Guarde com carinho os elogios, como uma espécie de recompensa, mas também desconfie quando for exagerado: muita gente simplesmente não consegue ser sincera e sempre é mais fácil elogiar que criticar. Sobre as críticas, use o mesmo cuidado: elas virão com muito menos frequência que os elogios, claro, mas saiba diferenciar uma crítica construtiva e sincera de mero despeito. Tente tornar útil toda e qualquer crítica. É uma arma que você recebe de graça para encontrar seus pontos fracos e anulá-los ou, ao menos, minimizá-los. Acima de tudo, tenha senso crítico sobre você mesmo(a): o que nesse elogio ou crítica é realmente verdade sobre você? Olhe-se no espelho e não se engane: o mundo inteiro pode estar errado e você certo, mas também pode acontecer o contrário.
Talvez este post terá uma parte 2. =)
Crueza, sutileza, profundidade e detalhismo. É que que se encontra neste disco
Meados de 1998. O CD já existia há um considerável tempo, mas, ao menos aqui em Vitória da Conquista, ainda começava a se popularizar. Eram caríssimos para um garoto de 16 anos como eu. Meus pais haviam comprado um micro-system recentemente, e sequer deixavam que eu mexesse nele quando não estivessem em casa. Como era rato de banca de revista, lia bastante, principalmente Superinteressante, a minha revista favorita à época. Ainda lia bastante Turma da Mônica, Disney, etc. Nas revistas da editora Abril havia sempre informações sobre um tal Musiclub. Você deveria comprar quatro CDs a um preço promocional, e então seria sócio do clube. Os CDs chegariam em casa. Desde os tempos do chocolate Surpresa, adorava receber encomendas pelos Correios. Ainda adoro. Então de tempos em tempos chegavam catálogos de CD e, ocasionalmente, também chegavam meus primeiros CDs.
Não me lembro muito bem, mas acho que esse CD era um dos quatro "pioneiros". Eu só conhecia conscientemente a óbvia Every Breath You Take, mas, tal qual o meu primeiro CD do Led Zeppelin, fui com a cara desse inglês e confiei arriscar uma pequena fortuna comprando um disco em que não fazia ideia do que encontrar, além daquela faixa. Minha intuição nunca falha! Este talvez foi o disco que mais escutei na vida, ou ao menos está no top-5. Vale lembrar que eram outros tempos: não havia internet. Não havia MTV por aqui. A rádio 96 FM ainda tocava boas músicas, mas já começava a dar sinais de que não daria mais para se basear em sua programação. Poucas lojas de CDs, e com acervos limitadíssimos. Ou seja: eu, como sócio do Musiclub era, provavelmente o mais bem-informado sobre o mundo musical do meu círculo de conhecidos.
Engraçado como a idade influencia diretamente com o estilo de música que se ouve. Na época, minhas preferidas eram as músicas mais animadas, como Message in a Bottle,De do do do, De da da da, enquanto Russians era a que eu menos ouvia. Hoje eu curto mais as lentas e sutis, como Fields of Gold, When We Dance, e até mesmo Russians. Quando ouvi o CD pela primeira vez, percebi que já tinha ouvido algumas músicas antes, e a que me chamou logo a atenção foi Englishman in New York, uma letra bem interessante sobre o choque cultural a que são submetidos os formais britânicos na descontraída metrópole americana.
Ainda tenho o CD, e muito bem conservado. Há alguns dias, copiei todas as faixas para o iPod, mais algumas que haviam em outra coletânea, que sempre trocava com um amigo, por alguns dias: Wrapped Around Your Finger, So Lonely, Don't Stand So Close To Me' 96, Invisible Sun e Spirits in the Material World. foi uma viagem à minha adolescência. Incrível como haviam detalhes que eu não percebia, e que são tão bonitos. Claro que eu também não tinha um fone de ouvido como o do iPod... O fato é que o power trio Sting, Andy Summers e Stewart Coperland eram (e são) brilhantes. São músicos de altíssimo nível. Uma grande influência jazzística numa banda crua, dos tempos do punk rock, onde excesso de sofisticação era demonizado.
Nas músicas do Police, percebo como o Coperland é um grande baterista. Ele consegue tirar dos cymbals um som extremamente rico, e simples. Hoje consigo ouvir o disco inteiro só prestando atenção ao conjunto cymbal-aro da caixa-bumbo. O Summers faz uma negação total aos tempos do rock pesado do Zeppelin e Purple, deixando muitas vezes a guitarra baixa, bem ao fundo, discreta. Sempre seca e falando, mas não na cara do ouvinte, como bem faziam todas as bandas dos anos 60-70. Realmente eram outros tempos. Já tinha enchido o saco ouvir tantos solos parecidos, impregnados de egos inflados (não que isto não existisse mais, óbvio). Sting é um músico completo: toca vários intrumentos diferentes, e sempre foi um grande compositor. Me admira também como sua voz não perdeu qualidade com o tempo.
Eu ouvia esse disco todos os dias, juntamente com uma coletânea do Men At Work, que falarei depois. Tinha poucos discos, duas ou três gavetas de fitas e só. A maioria dos colegas se contentava com o que estava na moda, então não havia diálogo. Me trancava no quarto e escutava, escutava, escutava. Fui caminhando para o que sou hoje, musicalmente. Ouvia muito Dire Straits também, e achava incrível que o Sting tenha se juntado ao Knopfler em Money For Nothing. Só não havia o Youtube pra me deleitar com vídeos de shows com os dois juntos. Hoje seria um sonho inimaginável ter acesso tão fácil a tanto material bom.
Numa pesquisa rápida, descobri que existem várias edições desta coletânea, e a que eu tenho é a segunda, de 1998:
- PolyGram International (1998)
- "Message in a Bottle" - 4:49
- "Can't Stand Losing You" - 2:58
- "Englishman in New York" - 4:25
- "Every Breath You Take" - 4:13
- "Seven Days" - 4:39
- "Walking on the Moon" - 4:59
- "Fields of Gold" - 3:40
- "Fragile" - 3:54
- "Every Little Thing She Does Is Magic" - 4:20
- "De Do Do Do, De Da Da Da" - 4:09
- "If You Love Somebody Set Them Free" - 4:14
- "Let Your Soul Be Your Pilot" - 4:29
- "Russians" - 3:57
- "If I Ever Lose My Faith in You" - 4:29
- "When We Dance" - 4:17
- "Don't Stand So Close to Me" - 4:03
- "Roxanne" - 3:12
- "Roxanne '97" (Puff Daddy Remix) - 4:33
Engraçado que a faixa 18 foi um dos poucos raps internacionais que já escutei. Até hoje não sei se gosto ou não dessa versão. Rap é sempre difícil de engolir pra mim, exceto pelo CD Quebra-Cabeça, do Gabriel, O Pensador, que também fez minha cabeça e ganhará um post no futuro.
Uma curiosidade é que, nessa época, eu já escrevia algumas letras, e tinha grande facilidade para fazer versões em português de músicas gringas. Fiz, então, uma versão para Every Little Thing She Does is Magic e uma extensão para a versão em português de Fragile, Frágil. O incrível é que até hoje acho boas as minhas versões. Quem sabe um dia não as trago à tona?
I. Malforea
Pôster promocional de 1971
Os que se interessam por música o suficiente para não tê-la como mero pano de fundo em suas vidas devem ter notado que há dois dias vários sites e blogs pelo mundo colocaram em evidência o álbum sem título do Led-Zeppelin, chamado por alguns simplesmente de "4" ou o "álbum dos quatro símbolos". Comemoramos no último dia 8 os quarenta anos de lançamento desta pérola do rock, que serviu para mostrar ao mundo o quão grande era(e viria a ser) esta incrível banda inglesa.
Bom, não vou ser mais um a contar a história do grupo ou do próprio disco. Pra isso existem milhares de sites e livros (incluindo a superbiografia Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que já tratei de falar aqui), quase todos muito bem-escritos. Aqui vou falar um pouco da minha própria experiência com o disco e como nunca mais fui o mesmo depois de entrar em contato com ele.
Antes de mais nada é bom lembrar que nasci em 1983, portanto nunca tive a felicidade de ir a uma loja de discos esperar ansiosamente por um novo álbum de uma de minhas bandas favoritas. Quando eu nasci, pra muita gente o rock já tinha morrido. Mas esta história começa muito tempo depois, quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, quando eu nem sonhava em CDs (apesar de já existirem há um bom tempo, no exterior), telefones celulares e muito menos internet. Quando se queria saber algo sobre uma banda, a única alternativa aqui em Vitória da Conquista-BA era fuçar as bancas de revistas e conversar com os amigos, que em sua maioria não saíam do lugar-comum baiano chamado axé. Argh!
Por sorte, minha mãe e meu tio sempre ouviram coisas legais e pude acompanhar todo o cenário musical dos anos 80. A esta altura já começava a criar asas, comprando fitas cassetes piratas de Raul Seixas e gravando as minhas próprias compilações. Certa vez, meu tio me deu quase todas as suas fitas. Estávamos naquele período onde o CD ameaçou explodir no Brasil e nem se sonhava em CD-Rs. Ou se comprava original, ou se continuava nas fitas e nos LPs. Dentre essas fitas havia uma bem interessante: uma coletânea, gravada de discos de vinil, sendo que não havia intervalos entre as músicas. Antes de uma acabar, já começava a outra. Pra mim isso era fantástico! O cara que gravou tinha duas vitrolas! Algo surreal pra um garoto que já sabia mexer em todas as funções dos toca-fitas, rebobinava com caneta BIC e sabia resolver o velho problema das fitas emboladas no deck com maestria.
A minha querida Grey K-7
O lado A já começava com uma música intrigante: começava com um violão, seguido de uma sombria flauta. Depois vinha uma voz ainda mais sombria, como vinda do além. A música ia crescendo. Entrava uma bateria, uma guitarra um tanto tímida até explodir em algo que eu não entendia direito, mas gostava. Parecia familiar. Muito provavelmente essa fita era tocada quando eu era bem pequeno. Quando a música acalmava, no que parecia ser o final, entrava, pra acompanhar a solitária voz, outro violão, diferente, mas parecido. Aquilo tudo somado ao chiado do vinil-fonte, criando um clima cujo CD nenhum seria capaz de reproduzir. Era muito sinistro e ao mesmo tempo hipnotizante.
Essa segunda música era parecida com a primeira: começava calma, explodia com guitarras, bateria e muito peso, pra depois se acalmar, como o sol que aparece depois de uma noite tempestuosa e violenta. Depois dessa faixa viria outra, mais parecida com a segunda que com a primeira. Eu não entendia mais nada. A fita não tinha nada além de um "reprodução" escrito no lado A. Era cheia de músicas boas e eu não sabia o nome de nenhuma. Nem sabia se essas três primeiras eram da mesma banda. Achava que seguiam um certo padrão e que poderiam sim ser de um só grupo.
Passado algum tempo descobri o nome da primeira: Stairway to Heaven. A melhor de todas, a minha preferida na época. As outras ainda não sabia, pois não tínhamos google e meus amigos gostavam mais de futebol do que de qualquer outra coisa. Depois descobri mais um pouco: a segunda era dos Scorpions, banda que depois descobri que era alemã e não tinha nada a ver com o Led Zeppelin. Aliás, por um bom tempo achei que Stairway to Heaven fosse dos Scorpions, porque, sabe-se lá o motivo, acreditei numa bobagem que me falaram. O fato é: eu conhecia muitas músicas, mas não sabia o nome de quase nenhuma, muito menos os nomes das bandas. Inglês pra mim era como aramaico primitivo.
O tempo passou e os CDs ficaram populares. Os primeiros piratas começaram a aparecer, mas eu não fazia idéia de como piratear um. Ainda não se vendia por aí gravadores como frutas na feira. Havia uma loja, onde eu sempre entrava pra ver os CDs. Era um mundo mágico, onde tudo parecia caro demais pra mim. Eu só podia olhar mesmo. Enquanto isso, nas grande cidades, imagino que já era a coisa mais banal do mundo. Eu já sabia a diferença entre Led Zeppelin e Scorpions. Como minhas referências vieram da Grey K-7, pra mim eram bandas muito parecidas. Stairway to Heaven era a única música do Led que eu conhecia conscientemente. Scorpions era mais acessível. Passava até nas rádios. Ah, eu já sabia que a faixa 3 se chamava Still Loving You. Parecia um pouco com a segunda, uma tal de Holiday.
Achei dois CDs que viraram meu sonho de consumo por meses: um era do Led Zeppelin. Era duplo. Se chamava Remasters. Olhei a setlist e, pra minha felicidade, lá estava Staiway to Heaven, a música mais espetacular que já ouvira. R$40,00, uma fortuna! O outro CD estava ao lado. Era dos Scorpions. também duplo. O título era Deadly Sting: The Mercury Years. Olhei a setlist e lá estava, na faixa 3 do disco 1, Holiday, a música mais parecida com a música mais espetacular que já ouvi! E eu era só um moleque que nunca ganhou mesada. Esse também custava R$40,00. Um sonho impossível.
Sonhos de consumo de um adolescente
Pra encurtar a história, passei meses sonhando e indo até a loja. Os CDs eram plastificados, então eu não podia ver os encartes, como eram as mídias e nada mais do que a capa e a contracapa. Uma tortura. O tempo passou e o natal chegou. Meus pais me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente. Numa explosão de felicidade os levei até a loja e mostrei os discos, na esperança de ganhar ao menos um. Decidiram cada um me dar um, me deixando em felicidade plena. Só que só me entregariam na noite de natal. Torturas de pais. Muitas vezes pensei que eu poderia cometer um erro fazendo isso, afinal eu só conhecia uma música do Led e pouco mais dos Scorpions. Isso conscientemente. Lembro de pensar: "Bom, uma banda que cria uma música como essa não tem como ser ruim". Me referia aos ingleses. Eu estava certo.
Com os discos em minhas mãos pude finalmente conferir o conteúdo. Que caras medonhos! Eu já estava habituado aos padrões visuais (e sonoros) do Guns n' Roses e me pareceu um monte de velhos com bigodes horríveis. Mas o importante era o som. O Scorpions tinha várias músicas conhecidas e que ainda tocavam na rádio. Foi mais fácil me adaptar. Eram muitas músicas. Teria muito tempo pra ouví-las incessantemente, como já fazia. Eram outros tempos, onde não existia a possibilidade de ter milhares de músicas instantaneamente, nos forçando a não ouvir nenhuma com atenção. Ainda degustava-se um disco lentamente. O CD do Led era mais impactante. Eram timbres que remetiam ao antigo. Por vezes achei as músicas leves demais. Nem imaginava que o Guns n' Roses apenas usava os recursos e efeitos que esses caras criaram do nada.
Reconheci algumas músicas, mas não tantas quanto as do Scorpions. Algumas vezes achei trechos meio clichês, sem imaginar que só o eram porque os caras foram copiados de todas as formas possíveis e eu reconhecia os trechos através de outros artistas. Mais ou menos a sensação que tive ao mergulhar nos Beatles pela primeira vez. Lá estava, ao fim do disco 1, Stairway to Heaven! Sem chiados, limpíssima, no falecido micro-system da Aiwa. O violão inicial parecia mais baixo. Que estranho! Nunca passaria por minha cabeça que o título Remasters fosse um trocadilho que explicava o porquê dessa diferença. Daí em diante o Led Zeppelin passou a ser a maior banda do universo pra mim, e os Scorpions caíram em meu conceito, principalmente por fazerem tantas jogadas comerciais demais pra um ouvinte atento. Suas baladas tiveram tantas versões diferentes que me convenci de que a banda já havia acabado e não tinham coragem de assumir. O Led não. Acabou por um motivo trágico. Os caras foram forçados a parar num momento de plenitude. Hoje, ao ler o livro já citado, vejo que não era bem assim. Mas ainda é mais digno.
O tempo passou e comecei a cantar, entrei em bandas onde me atrevia a interpretar o Led sem alterar os tons das músicas. Coisa de maluco. Decidi nunca mais me maltratar assim. Conheci várias outras bandas, o blues, o jazz, o tango... tanta coisa maravilhosa de se ouvir e tocar. E agora, aos 40 anos daquela que ainda é pra mim a música mais espetacular já criada por alguém me veio toda essa história na mente. A última música do lado A desse disco. Um disco essencialmente místico e sombrio. Sua versão remasterizada perdeu um pouco dessa essência. A prova disso é que, em minha fita cassete, gravada do vinil eu sentia toda a áurea sobrenatural emanada por Jimmy Page em seu auge. Ao ler o livro e ouvir essa versão única vejo claramente essa conexão. Nem era preciso sequer saber o nome da música ou da banda. A mensagem era passada instantaneamente. Isso é a verdadeira razão de ser da música. Passar uma mensagem, um sentimento. O Led Zeppelin IV é uma obra tão sincera que conquistou o mundo. Imagino quantas histórias como a minha existem por aí. Então nesses 40 anos de mensagens o mínimo que podemos oferecer ao grande quarteto fantástico é nossos sinceros parabéns e nosso mais que sincero "obrigado".
Ouça abaixo as duas primeiras faixas da velha Grey K-7: Stairway to heaven (1971) e Holiday (1979).
I. Malforea
Pôster promocional de 1971
Os que se interessam por música o suficiente para não tê-la como mero pano de fundo em suas vidas devem ter notado que há dois dias vários sites e blogs pelo mundo colocaram em evidência o álbum sem título do Led-Zeppelin, chamado por alguns simplesmente de "4" ou o "álbum dos quatro símbolos". Comemoramos no último dia 8 os quarenta anos de lançamento desta pérola do rock, que serviu para mostrar ao mundo o quão grande era(e viria a ser) esta incrível banda inglesa.
Bom, não vou ser mais um a contar a história do grupo ou do próprio disco. Pra isso existem milhares de sites e livros (incluindo a superbiografia Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que já tratei de falar aqui), quase todos muito bem-escritos. Aqui vou falar um pouco da minha própria experiência com o disco e como nunca mais fui o mesmo depois de entrar em contato com ele.
Antes de mais nada é bom lembrar que nasci em 1983, portanto nunca tive a felicidade de ir a uma loja de discos esperar ansiosamente por um novo álbum de uma de minhas bandas favoritas. Quando eu nasci, pra muita gente o rock já tinha morrido. Mas esta história começa muito tempo depois, quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, quando eu nem sonhava em CDs (apesar de já existirem há um bom tempo, no exterior), telefones celulares e muito menos internet. Quando se queria saber algo sobre uma banda, a única alternativa aqui em Vitória da Conquista-BA era fuçar as bancas de revistas e conversar com os amigos, que em sua maioria não saíam do lugar-comum baiano chamado axé. Argh!
Por sorte, minha mãe e meu tio sempre ouviram coisas legais e pude acompanhar todo o cenário musical dos anos 80. A esta altura já começava a criar asas, comprando fitas cassetes piratas de Raul Seixas e gravando as minhas próprias compilações. Certa vez, meu tio me deu quase todas as suas fitas. Estávamos naquele período onde o CD ameaçou explodir no Brasil e nem se sonhava em CD-Rs. Ou se comprava original, ou se continuava nas fitas e nos LPs. Dentre essas fitas havia uma bem interessante: uma coletânea, gravada de discos de vinil, sendo que não havia intervalos entre as músicas. Antes de uma acabar, já começava a outra. Pra mim isso era fantástico! O cara que gravou tinha duas vitrolas! Algo surreal pra um garoto que já sabia mexer em todas as funções dos toca-fitas, rebobinava com caneta BIC e sabia resolver o velho problema das fitas emboladas no deck com maestria.
A minha querida Grey K-7
O lado A já começava com uma música intrigante: começava com um violão, seguido de uma sombria flauta. Depois vinha uma voz ainda mais sombria, como vinda do além. A música ia crescendo. Entrava uma bateria, uma guitarra um tanto tímida até explodir em algo que eu não entendia direito, mas gostava. Parecia familiar. Muito provavelmente essa fita era tocada quando eu era bem pequeno. Quando a música acalmava, no que parecia ser o final, entrava, pra acompanhar a solitária voz, outro violão, diferente, mas parecido. Aquilo tudo somado ao chiado do vinil-fonte, criando um clima cujo CD nenhum seria capaz de reproduzir. Era muito sinistro e ao mesmo tempo hipnotizante.
Essa segunda música era parecida com a primeira: começava calma, explodia com guitarras, bateria e muito peso, pra depois se acalmar, como o sol que aparece depois de uma noite tempestuosa e violenta. Depois dessa faixa viria outra, mais parecida com a segunda que com a primeira. Eu não entendia mais nada. A fita não tinha nada além de um "reprodução" escrito no lado A. Era cheia de músicas boas e eu não sabia o nome de nenhuma. Nem sabia se essas três primeiras eram da mesma banda. Achava que seguiam um certo padrão e que poderiam sim ser de um só grupo.
Passado algum tempo descobri o nome da primeira: Stairway to Heaven. A melhor de todas, a minha preferida na época. As outras ainda não sabia, pois não tínhamos google e meus amigos gostavam mais de futebol do que de qualquer outra coisa. Depois descobri mais um pouco: a segunda era dos Scorpions, banda que depois descobri que era alemã e não tinha nada a ver com o Led Zeppelin. Aliás, por um bom tempo achei que Stairway to Heaven fosse dos Scorpions, porque, sabe-se lá o motivo, acreditei numa bobagem que me falaram. O fato é: eu conhecia muitas músicas, mas não sabia o nome de quase nenhuma, muito menos os nomes das bandas. Inglês pra mim era como aramaico primitivo.
O tempo passou e os CDs ficaram populares. Os primeiros piratas começaram a aparecer, mas eu não fazia idéia de como piratear um. Ainda não se vendia por aí gravadores como frutas na feira. Havia uma loja, onde eu sempre entrava pra ver os CDs. Era um mundo mágico, onde tudo parecia caro demais pra mim. Eu só podia olhar mesmo. Enquanto isso, nas grande cidades, imagino que já era a coisa mais banal do mundo. Eu já sabia a diferença entre Led Zeppelin e Scorpions. Como minhas referências vieram da Grey K-7, pra mim eram bandas muito parecidas. Stairway to Heaven era a única música do Led que eu conhecia conscientemente. Scorpions era mais acessível. Passava até nas rádios. Ah, eu já sabia que a faixa 3 se chamava Still Loving You. Parecia um pouco com a segunda, uma tal de Holiday.
Achei dois CDs que viraram meu sonho de consumo por meses: um era do Led Zeppelin. Era duplo. Se chamava Remasters. Olhei a setlist e, pra minha felicidade, lá estava Staiway to Heaven, a música mais espetacular que já ouvira. R$40,00, uma fortuna! O outro CD estava ao lado. Era dos Scorpions. também duplo. O título era Deadly Sting: The Mercury Years. Olhei a setlist e lá estava, na faixa 3 do disco 1, Holiday, a música mais parecida com a música mais espetacular que já ouvi! E eu era só um moleque que nunca ganhou mesada. Esse também custava R$40,00. Um sonho impossível.
Sonhos de consumo de um adolescente
Pra encurtar a história, passei meses sonhando e indo até a loja. Os CDs eram plastificados, então eu não podia ver os encartes, como eram as mídias e nada mais do que a capa e a contracapa. Uma tortura. O tempo passou e o natal chegou. Meus pais me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente. Numa explosão de felicidade os levei até a loja e mostrei os discos, na esperança de ganhar ao menos um. Decidiram cada um me dar um, me deixando em felicidade plena. Só que só me entregariam na noite de natal. Torturas de pais. Muitas vezes pensei que eu poderia cometer um erro fazendo isso, afinal eu só conhecia uma música do Led e pouco mais dos Scorpions. Isso conscientemente. Lembro de pensar: "Bom, uma banda que cria uma música como essa não tem como ser ruim". Me referia aos ingleses. Eu estava certo.
Com os discos em minhas mãos pude finalmente conferir o conteúdo. Que caras medonhos! Eu já estava habituado aos padrões visuais (e sonoros) do Guns n' Roses e me pareceu um monte de velhos com bigodes horríveis. Mas o importante era o som. O Scorpions tinha várias músicas conhecidas e que ainda tocavam na rádio. Foi mais fácil me adaptar. Eram muitas músicas. Teria muito tempo pra ouví-las incessantemente, como já fazia. Eram outros tempos, onde não existia a possibilidade de ter milhares de músicas instantaneamente, nos forçando a não ouvir nenhuma com atenção. Ainda degustava-se um disco lentamente. O CD do Led era mais impactante. Eram timbres que remetiam ao antigo. Por vezes achei as músicas leves demais. Nem imaginava que o Guns n' Roses apenas usava os recursos e efeitos que esses caras criaram do nada.
Reconheci algumas músicas, mas não tantas quanto as do Scorpions. Algumas vezes achei trechos meio clichês, sem imaginar que só o eram porque os caras foram copiados de todas as formas possíveis e eu reconhecia os trechos através de outros artistas. Mais ou menos a sensação que tive ao mergulhar nos Beatles pela primeira vez. Lá estava, ao fim do disco 1, Stairway to Heaven! Sem chiados, limpíssima, no falecido micro-system da Aiwa. O violão inicial parecia mais baixo. Que estranho! Nunca passaria por minha cabeça que o título Remasters fosse um trocadilho que explicava o porquê dessa diferença. Daí em diante o Led Zeppelin passou a ser a maior banda do universo pra mim, e os Scorpions caíram em meu conceito, principalmente por fazerem tantas jogadas comerciais demais pra um ouvinte atento. Suas baladas tiveram tantas versões diferentes que me convenci de que a banda já havia acabado e não tinham coragem de assumir. O Led não. Acabou por um motivo trágico. Os caras foram forçados a parar num momento de plenitude. Hoje, ao ler o livro já citado, vejo que não era bem assim. Mas ainda é mais digno.
O tempo passou e comecei a cantar, entrei em bandas onde me atrevia a interpretar o Led sem alterar os tons das músicas. Coisa de maluco. Decidi nunca mais me maltratar assim. Conheci várias outras bandas, o blues, o jazz, o tango... tanta coisa maravilhosa de se ouvir e tocar. E agora, aos 40 anos daquela que ainda é pra mim a música mais espetacular já criada por alguém me veio toda essa história na mente. A última música do lado A desse disco. Um disco essencialmente místico e sombrio. Sua versão remasterizada perdeu um pouco dessa essência. A prova disso é que, em minha fita cassete, gravada do vinil eu sentia toda a áurea sobrenatural emanada por Jimmy Page em seu auge. Ao ler o livro e ouvir essa versão única vejo claramente essa conexão. Nem era preciso sequer saber o nome da música ou da banda. A mensagem era passada instantaneamente. Isso é a verdadeira razão de ser da música. Passar uma mensagem, um sentimento. O Led Zeppelin IV é uma obra tão sincera que conquistou o mundo. Imagino quantas histórias como a minha existem por aí. Então nesses 40 anos de mensagens o mínimo que podemos oferecer ao grande quarteto fantástico é nossos sinceros parabéns e nosso mais que sincero "obrigado".
Ouça abaixo as duas primeiras faixas da velha Grey K-7: Stairway to heaven (1971) e Holiday (1979).
Assinar:
Postagens
(
Atom
)
IMPORTANTE: LEIA ESTES POSTS
O que está havendo...
Se você acompanhava nosso trabalho por aqui, com certeza notou que nossas atividades foram completamente paralisadas, desde dezembro de...





