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Categoria: Led Zeppelin

Pôster promocional de 1971

Os que se interessam por música o suficiente para não tê-la como mero pano de fundo em suas vidas devem ter notado que há dois dias vários sites e blogs pelo mundo colocaram em evidência o álbum sem título do Led Zeppelin, chamado por alguns simplesmente de "4" ou o "álbum dos quatro símbolos". Comemoramos em 8 de novembro os cinquenta(!) anos de lançamento desta pérola do rock, que serviu para mostrar ao mundo o quão grande era (e viria a ser) esta incrível banda inglesa.

Bom, não vou ser mais um a contar a história do grupo ou do próprio disco. Pra isso existem milhares de sites e livros (incluindo a super biografia Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que já tratei de falar aqui), quase todos muito bem-escritos. Aqui vou falar um pouco da minha própria experiência com o disco e como nunca mais fui o mesmo depois de entrar em contato com ele.

Antes de mais nada é bom lembrar que nasci em 1983, portanto quase nunca tive a felicidade de ir a uma loja de discos esperar ansiosamente por um novo álbum de uma de minhas bandas favoritas. Quando eu nasci, pra muita gente o rock já tinha morrido. Mas esta história começa muito tempo depois, quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, quando eu nem sonhava em CDs (apesar de já existirem há um bom tempo, no exterior), telefones celulares e muito menos internet. Quando se queria saber algo sobre uma banda, a única alternativa aqui em Vitória da Conquista-BA era fuçar as bancas de revistas e conversar com os amigos, que em sua maioria não saíam do lugar-comum baiano chamado axé. Argh!

Por sorte, minha mãe e meu tio sempre ouviram coisas legais e pude acompanhar todo o cenário musical dos anos 80. A esta altura já começava a criar asas, comprando fitas cassetes piratas de Raul Seixas e gravando as minhas próprias compilações. Certa vez, meu tio me deu quase todas as suas fitas. Estávamos naquele período onde o CD ameaçou explodir no Brasil e nem se sonhava em CD-Rs. Ou se comprava original, ou se continuava nas fitas e nos LPs. Dentre essas fitas havia uma bem interessante: uma coletânea, gravada de discos de vinil, sendo que não havia intervalos entre as músicas. Antes de uma acabar, já começava a outra. Pra mim isso era fantástico! O cara que gravou tinha duas vitrolas! Algo surreal pra um garoto que já sabia mexer em todas as funções dos toca-fitas, rebobinava com caneta BIC e sabia resolver o velho problema das fitas emboladas no deck com maestria.


A minha querida Grey K-7

O lado A já começava com uma música intrigante: começava com um violão, seguido de uma sombria flauta. Depois vinha uma voz ainda mais sombria, como vinda do além. A música ia crescendo. Entrava uma bateria, uma guitarra um tanto tímida até explodir em algo que eu não entendia direito, mas gostava. Parecia familiar. Muito provavelmente essa fita era tocada quando eu era bem pequeno. Quando a música acalmava, no que parecia ser o final, entrava, pra acompanhar a solitária voz, outro violão, diferente, mas parecido. Aquilo tudo somado ao chiado do vinil-fonte, criando um clima cujo CD nenhum seria capaz de reproduzir. Era muito sinistro e ao mesmo tempo hipnotizante.

Essa segunda música era parecida com a primeira: começava calma, explodia com guitarras, bateria e muito peso, pra depois se acalmar, como o sol que aparece depois de uma noite tempestuosa e violenta. Depois dessa faixa viria outra, mais parecida com a segunda que com a primeira. Eu não entendia mais nada. A fita não tinha nada além de um "reprodução" escrito no lado A. Era cheia de músicas boas e eu não sabia o nome de nenhuma. Nem sabia se essas três primeiras eram da mesma banda. Achava que seguiam um certo padrão e que poderiam sim ser de um só grupo.

Passado algum tempo descobri o nome da primeira: Stairway to Heaven. A melhor de todas, a minha preferida na época. As outras ainda não sabia, pois não tínhamos Google e meus amigos gostavam mais de futebol do que de qualquer outra coisa. Depois descobri mais um pouco: a segunda era dos Scorpions, banda que depois descobri que era alemã e não tinha nada a ver com o Led Zeppelin. Aliás, por um bom tempo achei que Stairway to Heaven fosse dos Scorpions, porque, sabe-se lá o motivo, acreditei numa bobagem que me falaram. O fato é: eu conhecia muitas músicas, mas não sabia o nome de quase nenhuma, muito menos os nomes das bandas. Inglês pra mim era como aramaico primitivo.

O tempo passou e os CDs ficaram populares. Os primeiros piratas começaram a aparecer, mas eu não fazia idéia de como piratear um. Ainda não se vendia por aí gravadores como frutas na feira. Havia uma loja, onde eu sempre entrava pra ver os CDs. Era um mundo mágico, onde tudo parecia caro demais pra mim. Eu só podia olhar mesmo. Enquanto isso, nas grande cidades, imagino que já era a coisa mais banal do mundo. Eu já sabia a diferença entre Led Zeppelin e Scorpions. Como minhas referências vieram da Grey K-7, pra mim eram bandas muito parecidas. Stairway to Heaven era a única música do Led que eu conhecia conscientemente. Scorpions era mais acessível. Passava até nas rádios. Ah, eu já sabia que a faixa 3 se chamava Still Loving You. Parecia um pouco com a segunda, uma tal de Holiday.

Achei dois CDs que viraram meu sonho de consumo por meses: um era do Led Zeppelin. Era duplo. Se chamava Remasters. Olhei a setlist e, pra minha felicidade, lá estava Stairway to Heaven, a música mais espetacular que já ouvira. R$40,00, uma fortuna! O outro CD estava ao lado. Era dos Scorpions. também duplo. O título era Deadly Sting: The Mercury Years. Olhei a setlist e lá estava, na faixa 3 do disco 1, Holiday, a música mais parecida com a música mais espetacular que já ouvi! E eu era só um moleque que nunca ganhou mesada. Esse também custava R$40,00. Um sonho impossível.

Sonhos de consumo de um adolescente

Pra encurtar a história, passei meses sonhando e indo até a loja. Os CDs eram lacrados, então eu não podia ver os encartes, como eram as mídias e nada mais do que a capa e a contracapa. Uma tortura. O tempo passou e o natal chegou. Meus pais me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente. Numa explosão de felicidade os levei até a loja e mostrei os discos, na esperança de ganhar ao menos um. Decidiram cada um me dar um, me deixando em felicidade plena. Só que só me entregariam na noite de natal. Torturas de pais. Muitas vezes pensei que eu poderia cometer um erro fazendo isso, afinal eu só conhecia uma música do Led e pouco mais dos Scorpions. Isso conscientemente. Lembro de pensar: "Bom, uma banda que cria uma música como essa não tem como ser ruim". Me referia aos ingleses. Eu estava certo.

Com os discos em minhas mãos pude finalmente conferir o conteúdo. Que caras medonhos! Eu já estava habituado aos padrões visuais (e sonoros) do Guns n' Roses e me pareceu um monte de velhos com bigodes horríveis. Mas o importante era o som. O Scorpions tinha várias músicas conhecidas e que ainda tocavam na rádio. Foi mais fácil me adaptar. Eram muitas músicas. Teria muito tempo pra ouvi-las incessantemente, como já fazia. Eram outros tempos, onde não existia a possibilidade de ter milhares de músicas instantaneamente, nos forçando a não ouvir nenhuma com atenção. Ainda degustava-se um disco lentamente. O CD do Led era mais impactante. Eram timbres que remetiam ao antigo. Por vezes achei as músicas leves demais. Nem imaginava que o Guns n' Roses apenas usava os recursos e efeitos que esses caras criaram do nada.

Reconheci algumas músicas, mas não tantas quanto as do Scorpions. Algumas vezes achei trechos meio clichês, sem imaginar que só o eram porque os caras foram copiados de todas as formas possíveis e eu reconhecia os trechos através de outros artistas. Mais ou menos a sensação que tive ao mergulhar nos Beatles pela primeira vez. Lá estava, ao fim do disco 1, Stairway to Heaven! Sem chiados, limpíssima, no falecido micro-system da Aiwa. O violão inicial parecia mais baixo. Que estranho! Nunca passaria por minha cabeça que o título Remasters fosse um trocadilho que explicava o porquê dessa diferença. Daí em diante o Led Zeppelin passou a ser a maior banda do universo pra mim, e os Scorpions caíram em meu conceito, principalmente por fazerem tantas jogadas comerciais demais pra um ouvinte atento. Suas baladas tiveram tantas versões diferentes que me convenci de que a banda já havia acabado e não tinham coragem de assumir. O Led não. Acabou por um motivo trágico. Os caras foram forçados a parar num momento de plenitude. Hoje, ao ler o livro já citado, vejo que não era bem assim. Mas ainda é mais digno.

O tempo passou e comecei a cantar, entrei em bandas onde me atrevia a interpretar o Led sem alterar os tons das músicas. Coisa de maluco. Decidi nunca mais me maltratar assim. Conheci várias outras bandas, o blues, o jazz, o tango... tanta coisa maravilhosa de se ouvir e tocar. E agora, aos 40 anos daquela que ainda é pra mim a música mais espetacular já criada por alguém me veio toda essa história na mente. A última música do lado A desse disco. Um disco essencialmente místico e sombrio. Sua versão remasterizada perdeu um pouco dessa essência. A prova disso é que, em minha fita cassete, gravada do vinil eu sentia toda a áurea sobrenatural emanada por Jimmy Page em seu auge. Ao ler o livro e ouvir essa versão única vejo claramente essa conexão. Nem era preciso sequer saber o nome da música ou da banda. A mensagem era passada instantaneamente. Isso é a verdadeira razão de ser da música. Passar uma mensagem, um sentimento. O Led Zeppelin IV é uma obra tão sincera que conquistou o mundo. Imagino quantas histórias como a minha existem por aí. Então, nesses 50 anos de mensagens, o mínimo que podemos oferecer ao grande quarteto fantástico é nossos sinceros parabéns e nosso mais que sincero "obrigado".

Ouça abaixo as duas primeiras faixas da velha Grey K-7: Stairway to heaven (1971) e Holiday (1979).







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Vídeo oficial da nova versão de "What is and What Should Never Be", da box The Complete BBC Sessions, com lançamento em 16 de setembro de 2016. Esta versão de 1969 e estava guardada até então.



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Robert Plant, o vocalista do Led Zeppelin, eleito pelos ouvintes da rádio inglesa Planet Rock a maior voz do rock. Autointitulado Deus Dourado, passou a ser alvo dos holofotes a partir do dia em que conheceu um sujeito estranho e sinistro chamado Jimmy Page. Plant sempre foi o tipo de cara que despertava amor e ódio. Desde os tempos de escola tinha fama de arrogante e muito seguro de si. Era um adolescente quando os Beatles e os Stones já eram famosos. Conheceu o blues americano e nunca mais largou.

Robert Plant: Uma Vida, de Paul Rees é uma boa e rara obra que ultrapassa os limites óbvios das inúmeras biografias do Led Zeppelin. Sempre que se fala desta banda parte-se do ângulo do Page, com sua luta por um lugar ao sol com os destroços dos Yardbirds. Desta vez o filme é multicâmera e escolhemos o ângulo do garoto de Black Country, local que nunca abandonou e se tornou seu refúgio. Aqui temos uma boa narração sobre os acontecimentos pré-page: a curiosidade pela música, os conflitos em casa e apenas uma certeza: a música seria sua vida!

Muita gente não se conforma com as constantes esquivas de Plant quando o assunto é um retorno do Led (Jimmy Page é o mais inconformado, sem dúvida). Antes eu achava que ele apenas era um cantor experiente que tinha noção dos seus limites, devido à ação do tempo e o modo agressivo com o qual sempre tratou suas cordas vocais. Agora ficou bem claro que o buraco é bem mais embaixo... E sombrio!

Coincidência ou não, as grandes tragédias de sua vida aconteceram durante seus tempos de deus dourado: acidentes, problemas mil e as mortes de seu filho Karac e seu amigo John Bonham criaram uma atmosfera pesada em torno da banda, o que criou a lenda urbana de que o Led carregava consigo uma espécie de maldição. Jimmy Page, claro, envolvido com ocultismo e se afundando nas drogas só adicionava mais lenha à fogueira. O gigante, tão minuciosamente construído estava descontrolado e a mil por hora. Óbvio que mais cedo ou mais tarde algo terrível e barulhento aconteceria.

Passada essa parte presente em qualquer biografia do Led, o livro segue adiante no lento processo de renascimento de Plant, ao longo de três décadas. Plant havia se acostumado a "receber" ordens do chefe, Page, e agora deveria ser o maquinista de seu próprio trem. Foi se descobrindo como indivíduo após seu auge, o que lhe pareceu assustador. Buscou se adequar às novidades de sua época até chegar ao patamar atual, de grande gênio da criação musical, sempre cercado dos melhores parceiros. Se seus primeiros trabalhos são datadíssimos e não convencem muito, os mais recentes, a partir de Mighty Rearranger (2005) parecem de extremo bom gosto e talento.

Apesar de sempre evitar, a sombra do Led Zeppelin o persegue até hoje. São tempos dolorosos que o castigam com culpa e dor dia após dia. Para a tristeza do seu maior amigo e inimigo, Jimmy Page, que encara a banda como seu "bebê", tal qual Roger Waters com o Pink Floyd. O livro nos possibilita conhecer aspectos mais íntimos da lenda do rock, que não escondia, quando mais jovem, sua intenção de se tornar o "Elvis Loiro". Sua relação com as mulheres (milhões!) e seus projetos pouco conhecidos, como a banda de rockabilly The Honeydrippers, cujo EP está até mesmo na Spotify, camuflado, além de sua parceira da nova Band of Joy, Patty Griffin, cujo disco American Kid também conta com Plant nos vocais. Aliás, provavelmente a única mulher de quem Plant se aproximou e não se relacionou foi a bela Alison Krauss, que foi iluminada com um dos melhores discos da década passada, Raising Sand, em parceria com Robert.

Este é um livro muito bem escrito, de fácil e rápida leitura, como um bom texto de um jornalista deve ser. Curiosamente, não foi muito divulgado aqui no Brasil. O encontrei por acaso e comprei. Valeu a pena. Fundamental para os que desejam conhecer melhor tudo à volta do Led Zeppelin, e não se prende ao "mais do mesmo" tão óbvio em qualquer história sobre a banda. De quebra, ainda ganhamos bastante bagagem musical para ocupar nossos ouvidos e mentes por um bom tempo.

Robert Plant: Uma Vida
Autor: Paul Rees
Editora: Leya
Edição: 1ª (2014)
Nº de páginas: 303 + 16 (fotos)
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Luz & Sombra: Conversas com Jimmy Page


Autor: Brad Tolinski

Editora: Globo

Lançamento: 2012
Nº de páginas: 288

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O livro do ano, para os que curtem boa música. Este livro do Brad Tolinski foi uma grande surpresa: descobri pelo Facebook que a Globo Livros estava anunciando seu lançamento e até me interessei, mas sem dar muita bola. Depois os posts foram aumentando e fiquei realmente curioso, até que um conhecido, músico paulistano, me disse ser ainda melhor que Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. Achei difícil, mas foi o suficiente para me convencer a comprar. Que grande surpresa! O livro é um daqueles que te prendem, e quando você menos espera já passou da página 100 há muito tempo. Tolinski é editor-chefe da revista Guitar World há mais de vinte anos, tendo entrevistado vários ícones, como BB King, Clapton e Jeff Beck, figuras que aparecem com frequência neste livro, que se divide em contextualizações no início de cada capítulo e muitas, muitas entrevistas, com o próprio Page ou com algum amigo/conhecido. 

Nas entrevistas, recebemos de bandeja inúmeros detalhes da trajetória do líder daquela que já foi considerada(e ainda o é por muitos) a maior banda do mundo. Seu aprendizado como guitarrista de estúdio, que tinha a obrigação de saber tocar vários gêneros diferentes, e sua formação e feeling como produtor. Dá pra se ter uma ideia bem clara de como o Led Zeppelin se tornou o grande amor de sua vida, e como esse assunto é sempre tratado com o máximo de zelo e cuidado por seu líder. O livro acompanha a trajetória de Page desde quando conseguiu sua primeira guitarra até os dias atuais, pós reunião na Arena O2, incluindo todas as parcerias da carreira solo, como com David Coverdale e os Black Crowes.

Para delírio dos guitarristas e qualquer pessoa que se meta com banda, estúdio, composição, etc., temos até mesmo uma seção dedicada exclusivamente a detalhar cada guitarra e amplificador usados pelo mestre, que também não esconde nada sobre os pedais e efeitos que estreou, usou e até mesmo criou em mais de cinquenta anos de carreira. Temos dicas de estúdio, como o segredo da microfonação da bateria de John Bonham e os famosos ecos reversos presentes já no primeiro álbum do Led. Claro, não poderia faltar a velha questão do ocultismo em sua vida e como ele sempre esteve presente em sua música.

Luz & Sombra(em referência à característica de se ter na mesma música os extremos de suavidade e peso, defendida e promovida por Page) mostra um lado humano do ícone da guitarra e da produção musical. São relatos raros de um homem que sempre preferiu estar cercado de mistério e, não raro, fez questão de virar as costas à imprensa, que o subestimou e menosprezou no final dos anos 60, antes do mundo inteiro cair aos seus pés. O livro também traz algumas informações que ao meu ver são até desnecessárias, como uma análise do mapa astral do guitarrista e uma análise de como seu jeito de se vestir influenciou a moda, por pessoas-referência nesses campos. Mas informação talvez nunca seja demais. 


O fato é que este é um livro que todo músico e simples amante da música deve ter. Um grande acerto da Globo Livros, a um preço justo e excelente qualidade gráfica. Se ainda tem dúvidas se deve ou não comprá-lo, ouça qualquer música do Led e confie no cara da guitarra. Ele sabe o que diz.

I. Malforea

Led-Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra
Título original: Led-Zeppelin: When Giants Walked the Earth 
Autor: Mick Wall

Editora: Larousse 
Lançamento: 2009 (Brasil), 1ª edição

Nº de páginas: 527 +24(fotos)
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Sabe aqueles livros bem grossos, que assustam só de olhar? Este é um deles. Mas sabe aqueles que são tão bons que quando você menos espera já passou da metade sem perceber? Idem. Led-Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é uma obra ímpar, sobre um dos maiores fenômenos musicais da história da música. Seu autor, Mick Wall é uma figura carimbada no meio musical britânico. Já trabalhou em revistas especializadas, no rádio e na TV, além de ter conhecido grande parte dos personagens que retrata no livro. Para conhecer melhor seu trabalho acesse seu site oficial.

Embora não seja muito resistente(ao final da leitura o letreiro metálico e as pontas já estavam desgastados), a capa dura da edição brasileira é bem inspiradora, com Jimmy Page no auge da forma, em preto-e-branco, com uma das mãos no alto, como se brilhasse, sugerindo o enorme poder que detinha quando o Led era considerado a maior banda do mundo. na contracapa temos uma foto com Plant e Page, também em PB, em meados de 1970. Um belo trabalho da capista Juliana Carvalho.

Um aspecto interessante do livro são os inúmeros flashbacks em 2ª pessoa, que apesar de serem em grande parte fruto da imaginação do autor(como ele mesmo diz na nota inicial), são totalmente coerentes e muito provavelmente representam o que cada personagem diria, dado o conhecimento acerca de todos adquirido após anos de pesquisas, conversas e entrevistas. Estas são as partes do livro onde pode-se descobrir detalhes de um passado mais distante, ou nem tanto, que não caberiam na narrativa. São como enormes parênteses no texto, num estilo RPG, mudando constantemente a identidade do próprio leitor, que é forçado a se colocar na pele de cada uma das pessoas descritas nas partes em itálico. Um método no mínimo interessante e até incomum.

Aos que ainda não entendem bem o papel de líder e mentor do Led-Zeppelin atribuido ao Jimmy Page, os primeiros capítulos clareiam definitivamente as idéias: Desde os tempos de músico de estúdio passando pela difícil e árdua tarefa de reviver os Yardbirds numa época em que já eram considerados ultrapassados, Page mostrou ao mundo que não só era um exímio músico, como também produtor, negociador e, por que não, pai. O Led Zeppelin, como várias vezes é referido pelo autor, sempre foi o seu bebê, a sua banda dos sonhos, onde poderia finalmente deixar de ser um simples acompanhante contratado para ser um agente influenciador, com inúmeras idéias loucas para devorar o mundo. Impossível não admirá-lo nesse aspecto.

Após a formação definitiva da banda, com os quatro integrantes aparentemente incompatíveis entre si, mas que se descobriram feitos uns para os outros, somados a um empresário mais do que dedicado, surgem as conhecidas histórias das turnês, com shows de mais de três horas de duração, festas, bebedeiras e orgias envolvendo as famosas(mesmo) groupies, que não raramente se referiam ao Led como a banda mais depravada que já conheceram, superando profissionais do ramo, como os Rolling Stones. A interação entre as grandes bandas da época também é um aspecto interessantíssimo, como a amizade de Page com Jeff Beck e Keith Richards, ou as bebedeiras de John Bonhan com Keith Moon, do The Who. A infeliz decisão de não tocar no Woodstock, o processo de gravação de cada disco, bem como as decisões e curiosidades sobre as capas, está tudo bem explicado na obra.
Um conselho aos que não detêm nenhum interesse por ocultismo ou esse famoso aspecto na biografia do Led, em especial, do Jimmy Page: pule o capítulo 9. São 30 páginas de puro Aleister Crowley. Sua vida, obra e legado são explicitados quase que exageradamente. Obviamente é um capítulo praticamente apenas para explicar o Jimmy Page que viria nos capítulos seguintes. A partir daí o ocultismo não se separa mais da trajetória da banda, que em sua fase decadente não raro era chamada de maldita ou agourenta, devido a tantos incidentes ruins, como a morte do filho de Plant, acidentes, ondas de violência e o xeque-mate, com a morte do baterista John Bonhan, que estava cada vez mais mergulhado no mundo do álcool e de outras drogas, além de ter se tornado um grande destruidor de quartos de hotel.

É incrível como o texto de Mick Wall envolve o leitor. Nos últimos capítulos pode-se até sentir um pouco da energia ruim que rondava a banda. A crescente dependência de heroína sofrida por Page, a surpreendente intenção de John Paul Jones de deixar o grupo, a perda do controle dos negócios por Peter Grant devido ao excesso de cocaína, a grande crise de Robert Plant em estar cada vez mais convencido de que todos os que se envolviam com o Led se metiam em problemas. Eram rotineiros episódios como a ocasião em que John Bonhan apontou uma arma para Glenn Hughes, então vocalista do Deep Purple, ou quando alguém lhe quebrava o nariz por se comportar como um ogro bêbado. Ainda assim vemos um lado humano e compreensivo, onde descobrimos que boa parte desse comportamento se devia à saudade de casa e da família.

O livro também é uma ótima fonte de referência a outros artistas. Muitos dos casos de plágio ou de shows em conjunto com outras bandas rendem ao leitor-pesquisador com perspicácia na web algumas pérolas dos anos 60-70, como o Iron Butterfly, Small Faces, Sandy Nelson, Lord Sutch, C.C.S. e a sinistra trilha do filme Lucifer Rising, assinada por Jimmy Page são alguns dos ótimos (e não muito conhecidos no Brasil) artistas contemporâneos ao Led. Bastam alguns minutos de busca para conhecer versões de músicas plagiadas pelo grupo ou artistas que viram neles grandes concorrentes. O público sempre ganha nesses casos.

Led-Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é um livro formidável e indispensável aos que se interessam de forma não-superficial pelo cenário musical na Europa e EUA durante os anos 60-70 e início dos 80. É uma viagem desde os tempos do recém descoberto blues na Inglaterra até o surgimento do punk. E ainda temos um avanço pós-Led que mostra o que aconteceu a cada um dos integrantes até o recente e lendário encontro na Arena O2 em Londres(2007). Podemos ter uma idéia mais clara sobre o porquê de Robert Plant se recusar a reunir-se de novo com Page e Jonesy e ainda conhecer um pouco sobre a história de seu penúltimo álbum, com a cantora de bluegrass Alisson Krauss. Leia de preferência com a discografia à mão, e buscando os outros grupos na internet. A sensação ao terminar a leitura é de que realmente se fez uma grande viagem... A bordo de um luxuoso zepelim de chumbo.

Leia!

Ouça!

Assista!

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