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Chega de espera! Com vocês, a segunda edição da BLUEZinada!, zine produzida pela Distintivo Blue e distribuída gratuitamente nos shows, em pontos culturais estratégicos ou em qualquer lugar. Basta nos encontrar por aí.

Nesta edição falamos da nossa seleção para o X Festival de Música Educadora FM, guitarra slide (com Camilo Oliveira estreando na zine), mais dicas de discos, vídeos e livros, e muito mais. Vale a pena conferir. Acima você tem acesso à versão para leitura virtual, e AQUI você pode baixar a versão para impressão. Compartilhe, espalhe e ajude o blues brasileiro a crescer.




Renato Russo: O Filho da Revolução
Autor: Carlos Marcelo
Editora: Agir (Ediouro)
Lançamento: 2012 (2ª Edição)
Nº de páginas: 416
https://dl.dropbox.com/u/17489549/DistintivoBlue.com/Artecete_carimbo.jpghttps://dl.dropbox.com/u/17489549/DistintivoBlue.com/Artecete_carimbo.jpghttps://dl.dropbox.com/u/17489549/DistintivoBlue.com/Artecete_carimbo.jpghttps://dl.dropbox.com/u/17489549/DistintivoBlue.com/Artecete_carimbo.jpghttps://dl.dropbox.com/u/17489549/DistintivoBlue.com/Artecete_carimbo.jpg


Descobri este livro através do Tenho Mais Discos Que Amigos. Depois de uma temporada de livros jurídicos, precisava descansar a mente com algo que eu realmente gostasse. Comprei. Enquanto esperava chegar, notei que a capa é parecidíssima com a do O Baú do Raul Revirado, cheia de fotos 3x4, recortes, fotos de páginas manuscritas e datilografadas. Quando já em mãos, notei que o miolo também tinha suas semelhanças, com fotos e manuscritos em negativo. Só depois notei que são do mesmo grupo editorial (Ediouro). Mas as semelhanças param por aí.

Ao contrário da biografia do Raulzito, a do Renato é densa. Letras bem menores e mais páginas. "Caí pra dentro". Que ótima surpresa. O livro é um trabalho minucioso e detalhista, com o objetivo de nos fazer entender quem foi o líder da Legião. Por sinal, percebe-se logo nos primeiros capítulos, um líder nato. Um garoto extremamente inteligente e muito bem-educado. Assim como o Raul, adorava falar inglês. Era o típico garoto que não raramente surpreendia o professor com mais conhecimento que o próprio.

Um aspecto bem interessante o livro é a contextualização. Não me arrisco a um número exato, mas diria que pelo menos 40% do miolo é para situar o leitor no mundo em que viveu a personagem. Com ele, conhecemos a história de Brasilia, desde os tempos em que era apenas um sonho do então presidente JK. Visitamos o golpe militar de 1964 até o seu fim, com o desastroso período do presidente Sarney. Entendemos um pouco sobre a transição musical dos anos 70 para os 90, com a demonização do rock super-trabalhado do Led-Zeppelin e Pink Floyd e a ascensão do "simplório" e direto punk rock. Também como se deu a adaptação desse novo jeito de se falar através da música para os consagrados brasileiros da MPB. Tudo isso se relacionando diretamente com O Renato, sua família e sua turma. Passa-se a entender o porquê de filhos de militares e diplomatas do Regime Militar se mostrarem tão revoltados e indignados a ponto de se tornarem referência no país.

Ao contrário do que se espera, a parte dedicada à Legião Urbana de fato é a menor do livro, apenas a ponta do iceberg. Também não faz muita falta, considerando que nos capítulos anteriores tivemos um verdadeiro raio X da mente desse grande gênio do rock brazuca. A voz grave e empostada que dava lugar à voz frágil e tímida quando descia dos palcos. Sem dúvida um personagem ímpar, que não se vê sempre por aí, nem nas ruas nem no mainstream (muito menos no que hoje chamo de mainstream alternativo).

Como é de praxe, também temos o momento pré-morte por complicações causadas pela AIDS, como das grandes lendas: depressivo, triste e comovente. Não sei vocês, mas, assim como quando da queda das Torres Gêmeas, lembro-me perfeitamente do momento em que o rádio anunciou sua morte. Os especiais em todas as emissoras me comoveram, mesmo não sabendo direito quem era o Renato Russo. Lembro de ouvir e pensar algo do tipo "poxa, eu gosto muito dessas músicas". Gostava da voz que me passava a ideia de um cara muito sério e adulto. Eu tinha 13 anos.

Enfim, este é um livro que todo amante verdadeiro da boa música deve ter em sua coleção. Não me lembro agora de uma biografia tão envolvente. Não deu vontade de parar. De quebra ainda conhecemos um pouco da história de outros ícones, como os Paralamas, Capital, Plebe, Titãs, Camisa e até mesmo o Cólera, banda punk referência até hoje, citada várias vezes durante a leitura. O que está esperando? Compre e conte um pouco da sua experiência aí embaixo.

I. Malforea

Leia ou baixe a primeira edição da BLUEZinada!

Sim, a BLUEZinada! agora também disponível em versão digital, colorida, exatamente igual à que distribuimos gratuitamente por aí. A primeira edição não será mais impressa, pra dar lugar à segunda edição, que está pra sair. Ainda há algumas unidades, que distribuiremos nos próximos shows. Colecione!



Pôster promocional de 1971

Os que se interessam por música o suficiente para não tê-la como mero pano de fundo em suas vidas devem ter notado que há dois dias vários sites e blogs pelo mundo colocaram em evidência o álbum sem título do Led-Zeppelin, chamado por alguns simplesmente de "4" ou o "álbum dos quatro símbolos". Comemoramos no último dia 8 os quarenta anos de lançamento desta pérola do rock, que serviu para mostrar ao mundo o quão grande era(e viria a ser) esta incrível banda inglesa.
Bom, não vou ser mais um a contar a história do grupo ou do próprio disco. Pra isso existem milhares de sites e livros (incluindo a superbiografia Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que já tratei de falar aqui), quase todos muito bem-escritos. Aqui vou falar um pouco da minha própria experiência com o disco e como nunca mais fui o mesmo depois de entrar em contato com ele.
Antes de mais nada é bom lembrar que nasci em 1983, portanto nunca tive a felicidade de ir a uma loja de discos esperar ansiosamente por um novo álbum de uma de minhas bandas favoritas. Quando eu nasci, pra muita gente o rock já tinha morrido. Mas esta história começa muito tempo depois, quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, quando eu nem sonhava em CDs (apesar de já existirem há um bom tempo, no exterior), telefones celulares e muito menos internet. Quando se queria saber algo sobre uma banda, a única alternativa aqui em Vitória da Conquista-BA era fuçar as bancas de revistas e conversar com os amigos, que em sua maioria não saíam do lugar-comum baiano chamado axé. Argh!
Por sorte, minha mãe e meu tio sempre ouviram coisas legais e pude acompanhar todo o cenário musical dos anos 80. A esta altura já começava a criar asas, comprando fitas cassetes piratas de Raul Seixas e gravando as minhas próprias compilações. Certa vez, meu tio me deu quase todas as suas fitas. Estávamos naquele período onde o CD ameaçou explodir no Brasil e nem se sonhava em CD-Rs. Ou se comprava original, ou se continuava nas fitas e nos LPs. Dentre essas fitas havia uma bem interessante: uma coletânea, gravada de discos de vinil, sendo que não havia intervalos entre as músicas. Antes de uma acabar, já começava a outra. Pra mim isso era fantástico! O cara que gravou tinha duas vitrolas! Algo surreal pra um garoto que já sabia mexer em todas as funções dos toca-fitas, rebobinava com caneta BIC e sabia resolver o velho problema das fitas emboladas no deck com maestria.


A minha querida Grey K-7

O lado A já começava com uma música intrigante: começava com um violão, seguido de uma sombria flauta. Depois vinha uma voz ainda mais sombria, como vinda do além. A música ia crescendo. Entrava uma bateria, uma guitarra um tanto tímida até explodir em algo que eu não entendia direito, mas gostava. Parecia familiar. Muito provavelmente essa fita era tocada quando eu era bem pequeno. Quando a música acalmava, no que parecia ser o final, entrava, pra acompanhar a solitária voz, outro violão, diferente, mas parecido. Aquilo tudo somado ao chiado do vinil-fonte, criando um clima cujo CD nenhum seria capaz de reproduzir. Era muito sinistro e ao mesmo tempo hipnotizante.
Essa segunda música era parecida com a primeira: começava calma, explodia com guitarras, bateria e muito peso, pra depois se acalmar, como o sol que aparece depois de uma noite tempestuosa e violenta. Depois dessa faixa viria outra, mais parecida com a segunda que com a primeira. Eu não entendia mais nada. A fita não tinha nada além de um "reprodução" escrito no lado A. Era cheia de músicas boas e eu não sabia o nome de nenhuma. Nem sabia se essas três primeiras eram da mesma banda. Achava que seguiam um certo padrão e que poderiam sim ser de um só grupo.
Passado algum tempo descobri o nome da primeira: Stairway to Heaven. A melhor de todas, a minha preferida na época. As outras ainda não sabia, pois não tínhamos google e meus amigos gostavam mais de futebol do que de qualquer outra coisa. Depois descobri mais um pouco: a segunda era dos Scorpions, banda que depois descobri que era alemã e não tinha nada a ver com o Led Zeppelin. Aliás, por um bom tempo achei que Stairway to Heaven fosse dos Scorpions, porque, sabe-se lá o motivo, acreditei numa bobagem que me falaram. O fato é: eu conhecia muitas músicas, mas não sabia o nome de quase nenhuma, muito menos os nomes das bandas. Inglês pra mim era como aramaico primitivo.
O tempo passou e os CDs ficaram populares. Os primeiros piratas começaram a aparecer, mas eu não fazia idéia de como piratear um. Ainda não se vendia por aí gravadores como frutas na feira. Havia uma loja, onde eu sempre entrava pra ver os CDs. Era um mundo mágico, onde tudo parecia caro demais pra mim. Eu só podia olhar mesmo. Enquanto isso, nas grande cidades, imagino que já era a coisa mais banal do mundo. Eu já sabia a diferença entre Led Zeppelin e Scorpions. Como minhas referências vieram da Grey K-7, pra mim eram bandas muito parecidas. Stairway to Heaven era a única música do Led que eu conhecia conscientemente. Scorpions era mais acessível. Passava até nas rádios. Ah, eu já sabia que a faixa 3 se chamava Still Loving You. Parecia um pouco com a segunda, uma tal de Holiday.
Achei dois CDs que viraram meu sonho de consumo por meses: um era do Led Zeppelin. Era duplo. Se chamava Remasters. Olhei a setlist e, pra minha felicidade, lá estava Staiway to Heaven, a música mais espetacular que já ouvira. R$40,00, uma fortuna! O outro CD estava ao lado. Era dos Scorpions. também duplo. O título era Deadly Sting: The Mercury Years. Olhei a setlist e lá estava, na faixa 3 do disco 1, Holiday, a música mais parecida com a música mais espetacular que já ouvi! E eu era só um moleque que nunca ganhou mesada. Esse também custava R$40,00. Um sonho impossível.

Sonhos de consumo de um adolescente

Pra encurtar a história, passei meses sonhando e indo até a loja. Os CDs eram plastificados, então eu não podia ver os encartes, como eram as mídias e nada mais do que a capa e a contracapa. Uma tortura. O tempo passou e o natal chegou. Meus pais me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente. Numa explosão de felicidade os levei até a loja e mostrei os discos, na esperança de ganhar ao menos um. Decidiram cada um me dar um, me deixando em felicidade plena. Só que só me entregariam na noite de natal. Torturas de pais. Muitas vezes pensei que eu poderia cometer um erro fazendo isso, afinal eu só conhecia uma música do Led e pouco mais dos Scorpions. Isso conscientemente. Lembro de pensar: "Bom, uma banda que cria uma música como essa não tem como ser ruim". Me referia aos ingleses. Eu estava certo.
Com os discos em minhas mãos pude finalmente conferir o conteúdo. Que caras medonhos! Eu já estava habituado aos padrões visuais (e sonoros) do Guns n' Roses e me pareceu um monte de velhos com bigodes horríveis. Mas o importante era o som. O Scorpions tinha várias músicas conhecidas e que ainda tocavam na rádio. Foi mais fácil me adaptar. Eram muitas músicas. Teria muito tempo pra ouví-las incessantemente, como já fazia. Eram outros tempos, onde não existia a possibilidade de ter milhares de músicas instantaneamente, nos forçando a não ouvir nenhuma com atenção. Ainda degustava-se um disco lentamente. O CD do Led era mais impactante. Eram timbres que remetiam ao antigo. Por vezes achei as músicas leves demais. Nem imaginava que o Guns n' Roses apenas usava os recursos e efeitos que esses caras criaram do nada.
Reconheci algumas músicas, mas não tantas quanto as do Scorpions. Algumas vezes achei trechos meio clichês, sem imaginar que só o eram porque os caras foram copiados de todas as formas possíveis e eu reconhecia os trechos através de outros artistas. Mais ou menos a sensação que tive ao mergulhar nos Beatles pela primeira vez. Lá estava, ao fim do disco 1, Stairway to Heaven! Sem chiados, limpíssima, no falecido micro-system da Aiwa. O violão inicial parecia mais baixo. Que estranho! Nunca passaria por minha cabeça que o título Remasters fosse um trocadilho que explicava o porquê dessa diferença. Daí em diante o Led Zeppelin passou a ser a maior banda do universo pra mim, e os Scorpions caíram em meu conceito, principalmente por fazerem tantas jogadas comerciais demais pra um ouvinte atento. Suas baladas tiveram tantas versões diferentes que me convenci de que a banda já havia acabado e não tinham coragem de assumir. O Led não. Acabou por um motivo trágico. Os caras foram forçados a parar num momento de plenitude. Hoje, ao ler o livro já citado, vejo que não era bem assim. Mas ainda é mais digno.
O tempo passou e comecei a cantar, entrei em bandas onde me atrevia a interpretar o Led sem alterar os tons das músicas. Coisa de maluco. Decidi nunca mais me maltratar assim. Conheci várias outras bandas, o blues, o jazz, o tango... tanta coisa maravilhosa de se ouvir e tocar. E agora, aos 40 anos daquela que ainda é pra mim a música mais espetacular já criada por alguém me veio toda essa história na mente. A última música do lado A desse disco. Um disco essencialmente místico e sombrio. Sua versão remasterizada perdeu um pouco dessa essência. A prova disso é que, em minha fita cassete, gravada do vinil eu sentia toda a áurea sobrenatural emanada por Jimmy Page em seu auge. Ao ler o livro e ouvir essa versão única vejo claramente essa conexão. Nem era preciso sequer saber o nome da música ou da banda. A mensagem era passada instantaneamente. Isso é a verdadeira razão de ser da música. Passar uma mensagem, um sentimento. O Led Zeppelin IV é uma obra tão sincera que conquistou o mundo. Imagino quantas histórias como a minha existem por aí. Então nesses 40 anos de mensagens o mínimo que podemos oferecer ao grande quarteto fantástico é nossos sinceros parabéns e nosso mais que sincero "obrigado".

Ouça abaixo as duas primeiras faixas da velha Grey K-7: Stairway to heaven (1971) e Holiday (1979).


I. Malforea
Pôster promocional de 1971

Os que se interessam por música o suficiente para não tê-la como mero pano de fundo em suas vidas devem ter notado que há dois dias vários sites e blogs pelo mundo colocaram em evidência o álbum sem título do Led-Zeppelin, chamado por alguns simplesmente de "4" ou o "álbum dos quatro símbolos". Comemoramos no último dia 8 os quarenta anos de lançamento desta pérola do rock, que serviu para mostrar ao mundo o quão grande era(e viria a ser) esta incrível banda inglesa.
Bom, não vou ser mais um a contar a história do grupo ou do próprio disco. Pra isso existem milhares de sites e livros (incluindo a superbiografia Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, que já tratei de falar aqui), quase todos muito bem-escritos. Aqui vou falar um pouco da minha própria experiência com o disco e como nunca mais fui o mesmo depois de entrar em contato com ele.
Antes de mais nada é bom lembrar que nasci em 1983, portanto nunca tive a felicidade de ir a uma loja de discos esperar ansiosamente por um novo álbum de uma de minhas bandas favoritas. Quando eu nasci, pra muita gente o rock já tinha morrido. Mas esta história começa muito tempo depois, quando eu tinha uns quatorze ou quinze anos, quando eu nem sonhava em CDs (apesar de já existirem há um bom tempo, no exterior), telefones celulares e muito menos internet. Quando se queria saber algo sobre uma banda, a única alternativa aqui em Vitória da Conquista-BA era fuçar as bancas de revistas e conversar com os amigos, que em sua maioria não saíam do lugar-comum baiano chamado axé. Argh!
Por sorte, minha mãe e meu tio sempre ouviram coisas legais e pude acompanhar todo o cenário musical dos anos 80. A esta altura já começava a criar asas, comprando fitas cassetes piratas de Raul Seixas e gravando as minhas próprias compilações. Certa vez, meu tio me deu quase todas as suas fitas. Estávamos naquele período onde o CD ameaçou explodir no Brasil e nem se sonhava em CD-Rs. Ou se comprava original, ou se continuava nas fitas e nos LPs. Dentre essas fitas havia uma bem interessante: uma coletânea, gravada de discos de vinil, sendo que não havia intervalos entre as músicas. Antes de uma acabar, já começava a outra. Pra mim isso era fantástico! O cara que gravou tinha duas vitrolas! Algo surreal pra um garoto que já sabia mexer em todas as funções dos toca-fitas, rebobinava com caneta BIC e sabia resolver o velho problema das fitas emboladas no deck com maestria.


A minha querida Grey K-7

O lado A já começava com uma música intrigante: começava com um violão, seguido de uma sombria flauta. Depois vinha uma voz ainda mais sombria, como vinda do além. A música ia crescendo. Entrava uma bateria, uma guitarra um tanto tímida até explodir em algo que eu não entendia direito, mas gostava. Parecia familiar. Muito provavelmente essa fita era tocada quando eu era bem pequeno. Quando a música acalmava, no que parecia ser o final, entrava, pra acompanhar a solitária voz, outro violão, diferente, mas parecido. Aquilo tudo somado ao chiado do vinil-fonte, criando um clima cujo CD nenhum seria capaz de reproduzir. Era muito sinistro e ao mesmo tempo hipnotizante.
Essa segunda música era parecida com a primeira: começava calma, explodia com guitarras, bateria e muito peso, pra depois se acalmar, como o sol que aparece depois de uma noite tempestuosa e violenta. Depois dessa faixa viria outra, mais parecida com a segunda que com a primeira. Eu não entendia mais nada. A fita não tinha nada além de um "reprodução" escrito no lado A. Era cheia de músicas boas e eu não sabia o nome de nenhuma. Nem sabia se essas três primeiras eram da mesma banda. Achava que seguiam um certo padrão e que poderiam sim ser de um só grupo.
Passado algum tempo descobri o nome da primeira: Stairway to Heaven. A melhor de todas, a minha preferida na época. As outras ainda não sabia, pois não tínhamos google e meus amigos gostavam mais de futebol do que de qualquer outra coisa. Depois descobri mais um pouco: a segunda era dos Scorpions, banda que depois descobri que era alemã e não tinha nada a ver com o Led Zeppelin. Aliás, por um bom tempo achei que Stairway to Heaven fosse dos Scorpions, porque, sabe-se lá o motivo, acreditei numa bobagem que me falaram. O fato é: eu conhecia muitas músicas, mas não sabia o nome de quase nenhuma, muito menos os nomes das bandas. Inglês pra mim era como aramaico primitivo.
O tempo passou e os CDs ficaram populares. Os primeiros piratas começaram a aparecer, mas eu não fazia idéia de como piratear um. Ainda não se vendia por aí gravadores como frutas na feira. Havia uma loja, onde eu sempre entrava pra ver os CDs. Era um mundo mágico, onde tudo parecia caro demais pra mim. Eu só podia olhar mesmo. Enquanto isso, nas grande cidades, imagino que já era a coisa mais banal do mundo. Eu já sabia a diferença entre Led Zeppelin e Scorpions. Como minhas referências vieram da Grey K-7, pra mim eram bandas muito parecidas. Stairway to Heaven era a única música do Led que eu conhecia conscientemente. Scorpions era mais acessível. Passava até nas rádios. Ah, eu já sabia que a faixa 3 se chamava Still Loving You. Parecia um pouco com a segunda, uma tal de Holiday.
Achei dois CDs que viraram meu sonho de consumo por meses: um era do Led Zeppelin. Era duplo. Se chamava Remasters. Olhei a setlist e, pra minha felicidade, lá estava Staiway to Heaven, a música mais espetacular que já ouvira. R$40,00, uma fortuna! O outro CD estava ao lado. Era dos Scorpions. também duplo. O título era Deadly Sting: The Mercury Years. Olhei a setlist e lá estava, na faixa 3 do disco 1, Holiday, a música mais parecida com a música mais espetacular que já ouvi! E eu era só um moleque que nunca ganhou mesada. Esse também custava R$40,00. Um sonho impossível.

Sonhos de consumo de um adolescente

Pra encurtar a história, passei meses sonhando e indo até a loja. Os CDs eram plastificados, então eu não podia ver os encartes, como eram as mídias e nada mais do que a capa e a contracapa. Uma tortura. O tempo passou e o natal chegou. Meus pais me perguntaram o que eu gostaria de ganhar de presente. Numa explosão de felicidade os levei até a loja e mostrei os discos, na esperança de ganhar ao menos um. Decidiram cada um me dar um, me deixando em felicidade plena. Só que só me entregariam na noite de natal. Torturas de pais. Muitas vezes pensei que eu poderia cometer um erro fazendo isso, afinal eu só conhecia uma música do Led e pouco mais dos Scorpions. Isso conscientemente. Lembro de pensar: "Bom, uma banda que cria uma música como essa não tem como ser ruim". Me referia aos ingleses. Eu estava certo.

Com os discos em minhas mãos pude finalmente conferir o conteúdo. Que caras medonhos! Eu já estava habituado aos padrões visuais (e sonoros) do Guns n' Roses e me pareceu um monte de velhos com bigodes horríveis. Mas o importante era o som. O Scorpions tinha várias músicas conhecidas e que ainda tocavam na rádio. Foi mais fácil me adaptar. Eram muitas músicas. Teria muito tempo pra ouví-las incessantemente, como já fazia. Eram outros tempos, onde não existia a possibilidade de ter milhares de músicas instantaneamente, nos forçando a não ouvir nenhuma com atenção. Ainda degustava-se um disco lentamente. O CD do Led era mais impactante. Eram timbres que remetiam ao antigo. Por vezes achei as músicas leves demais. Nem imaginava que o Guns n' Roses apenas usava os recursos e efeitos que esses caras criaram do nada.

Reconheci algumas músicas, mas não tantas quanto as do Scorpions. Algumas vezes achei trechos meio clichês, sem imaginar que só o eram porque os caras foram copiados de todas as formas possíveis e eu reconhecia os trechos através de outros artistas. Mais ou menos a sensação que tive ao mergulhar nos Beatles pela primeira vez. Lá estava, ao fim do disco 1, Stairway to Heaven! Sem chiados, limpíssima, no falecido micro-system da Aiwa. O violão inicial parecia mais baixo. Que estranho! Nunca passaria por minha cabeça que o título Remasters fosse um trocadilho que explicava o porquê dessa diferença. Daí em diante o Led Zeppelin passou a ser a maior banda do universo pra mim, e os Scorpions caíram em meu conceito, principalmente por fazerem tantas jogadas comerciais demais pra um ouvinte atento. Suas baladas tiveram tantas versões diferentes que me convenci de que a banda já havia acabado e não tinham coragem de assumir. O Led não. Acabou por um motivo trágico. Os caras foram forçados a parar num momento de plenitude. Hoje, ao ler o livro já citado, vejo que não era bem assim. Mas ainda é mais digno.

O tempo passou e comecei a cantar, entrei em bandas onde me atrevia a interpretar o Led sem alterar os tons das músicas. Coisa de maluco. Decidi nunca mais me maltratar assim. Conheci várias outras bandas, o blues, o jazz, o tango... tanta coisa maravilhosa de se ouvir e tocar. E agora, aos 40 anos daquela que ainda é pra mim a música mais espetacular já criada por alguém me veio toda essa história na mente. A última música do lado A desse disco. Um disco essencialmente místico e sombrio. Sua versão remasterizada perdeu um pouco dessa essência. A prova disso é que, em minha fita cassete, gravada do vinil eu sentia toda a áurea sobrenatural emanada por Jimmy Page em seu auge. Ao ler o livro e ouvir essa versão única vejo claramente essa conexão. Nem era preciso sequer saber o nome da música ou da banda. A mensagem era passada instantaneamente. Isso é a verdadeira razão de ser da música. Passar uma mensagem, um sentimento. O Led Zeppelin IV é uma obra tão sincera que conquistou o mundo. Imagino quantas histórias como a minha existem por aí. Então nesses 40 anos de mensagens o mínimo que podemos oferecer ao grande quarteto fantástico é nossos sinceros parabéns e nosso mais que sincero "obrigado".

Ouça abaixo as duas primeiras faixas da velha Grey K-7: Stairway to heaven (1971) e Holiday (1979).


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgByjgHxBcVvgfuhQ07KedOPTF1zg_dMcGSdYIHAZKMHXCWNp0cwk467PpaJUQ-MbtCfo5IMA7dtiqAXKRaHT4EF1pXlUqG7I7TO57618ZtpV5Gzn4hFUWGZH-DeGJhePxbGcKi7S9QazRJ/s1600/Capa_Cash_Divulga.jpg
Quadrinhos alemães contam a história de um ícone da música americana


Depois de ler Castro nada mais tentador que ir atrás de mais obras do grande quadrinista alemão Reinhard Kleis, principalmente com personagens tão atraentes quanto Elvis ou Johnny Cash. Para os aficcionados por música que, como eu, não a encaram como mero pano de fundo em suas vidas, biografias de músicos são um prato cheio de grandes experiências. Em Cash - Uma Biografia não poderia ser diferente.
Segundo a introdução de Franz Dobler, escritor, jornalista musical e biógrafo de Cash, ao contrário do que se pôde pensar, este livro não pegou carona no sucesso do filme Johnny & June(2005). Ambos foram compostos praticamente ao mesmo tempo, sendo que o livro foi lançado pouco tempo depois, mostrando a mesma história de formas bem diferentes. O livro é bem mais introspectivo, trazendo momentos até sinistros, principalmente ao tocar na luta do astro contra seu vício em comprimidos. Sua relação com June Carter também é menos explicitada aqui.
O quadrinista optou por um traço mais solto e menos detalhista, o que por vezes pode confundir o leitor ao reconhecer certos personagens. Nada que não se resolva numa segunda leitura, o que serve para qualquer livro. Em compensação, ao final do livro há dez páginas de ilustrações mais detalhadas e agradáveis aos que preferem desenhos mais realistas, provando que Kleist dá sim conta do recado. Um aspecto interessante da narrativa são representações das histórias contadas nas músicas, como um videoclipe em quadrinhos. Algumas cenas são reproduzidas de fotos reais, como a ocasião em que tocou uma música de um detento de Folson Prison, chamada Greystone Chapel.
http://www.stevenmenke.com/Pictures/PicFolsomPrison2.jpghttps://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjBTlNLN8fYZVVM1j2ZEV_NSlS8iko4ZmYZo2eqQzJXKaGcV42e7O82yzMMBDLdwYKNnJ-NeDn1ILZn2xS1KLMFCLZ1oNFubQ2kxe1VvRiQ33HNysP3HADnkLFZ6tBkxi2qHfNcFt5Yva-T/s400/Johnny_Cash_&_Glen_Sherley_by_Kleist.jpg
O autor se preocupou em retratar fatos documentados em fotografias

Em meio à luta contra as drogas, o romance com June Carter, os problemas com a lei, seu trauma com a perda do irmão Jack e até mesmo encontros com Elvis Presley e Jerry Lee Lewis temos ainda uma grande lição: a de que sempre temos escolha. Diversas vezes vemos alguém dizer ao Johnny que ele fez o que quis ou ele mesmo o afirmando, principalmente no que diz respeito às drogas e à vida que levava. Uma grande verdade que vale para todos nós. Este foi mais um feliz acerto da 8Inverso, editora que conheci com Castro. Estive com Elvis - Uma Biografia em mãos e percebi um traço bem diferente, ainda mais simplista. Escolhi deixá-lo para uma próxima vez. Em breve revisitarei Kleist e contarei tudo a vocês.


FICHA TÉCNICA
Título em português: Cash - uma biografia
Título original: Cash - I see a darkness
Lançamento original: 2006
Lançamento no Brasil: 2009
Autor: Reinhard Kleis
Tradutor: Augusto paim
Editora: 8Inverso
Nº de páginas: 224

I. Malforea

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