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Categoria: Julio Caldas




Mais do Mesmo (Julio Caldas - Claudio Diolu)




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Vem do samba, do agogô
Seja de que lado for
o som da nossa história 
Se achegue por favor 
(Café Com Blues)

Café Com Blues. Foto: divulgação
No mesmo dia em que o Dead Billies se apresentou para o programa Musikaos, pela TV Cultura, em 2003, foi recebido com estranheza pelo público. Questionado sobre um certo produtor dizer que “o problema do rock na Bahia é que ninguém gosta de levar na base do profissionalismo”, o vocalista respondeu que, dentro de oito anos de carreira, o grupo tinha feito muito. Se as grandes bandas de rock independentes baianas representavam uma surpresa no cenário nacional, quiçá o blues?

De acordo com o autor Hamilton Coragem, “o blues não nasceu de uma emancipação em si mesma, mas de transformações da música negra sobre o efeito de novas condições socioeconômicas criadas por essa emancipação”, logo, tal aparecimento teria se dado a partir do século XIX ou XX. Embora a existência do blues na época da escravidão seja uma dúvida, é certo dizer que os cantos e lamentos entre os homens negros, durante os trabalhos forçados e as danças, serviram de grande respaldo para tal aparecimento.

Sabe-se que a palavra foi citada pela primeira vez por Charlotte Forten em seu diário, datado em 1862. Mas, ainda assim, não define claramente a expressão como um gênero ou algo referente à música. Por outro lado, em outra data, ela cita Poor Rosy, cujo relato diz: “uma das escravas me disse: 'Gosto de Poor Rosy mais do que de qualquer outra canção, mas para cantá-la bem é preciso estar muito triste e com o espírito inquieto'”. Nesse sentido, pode-se concluir que, embora a canção não seja um blues, as características eram bem visíveis, e a palavra já fazia parte do vocabulário entre os negros.

Com o fim da escravidão, a luta pelos direitos ao voto e contra a segregação racial, o blues foi se tornando mais visível. Os músicos profissionais surgiram, geralmente aqueles impossibilitados de seguir um trabalho manual, outras vezes, para atrair outros trabalhadores ou simplesmente para se expressar em meio a tantas injustiças. Desde então, todo o sofrimento e revolta do povo negro passou a ser registrado frequentemente nas canções.

Com o tempo, o gênero foi se difundindo pela Europa e França até se tornar uma influência mundial. Hoje, é cantado e tocado não apenas por negros, mas por brancos. Talvez seja, também, por isso que o blues feito no Brasil é encarado de forma tão estranha. Além disso, a música não vinha mais acompanhada de relatos de pressões e lutas sofridas por homens negros, mas sim pelo povo, incluindo as diversas origens, seja o sertanejo, o nordestino, o trabalhador, o miserável, ou mesmo a mulher, geralmente vista como quem atrai e desperta desejos.

Com a diversidade de ritmos e misturas, poucos grupos e artistas nacionais ainda são “fiéis” ao estilo. Muitos deles não são tão visíveis pela mídia, o que nos dá a impressão de que cantar e tocar blues são para poucos. Geralmente, o gênero exige do músico mais habilidade, compromisso, estudo e interação, como qualquer outro estilo pouco habitual. Consequentemente, poucos grupos chegam a durar muito. Outros só chegam ao reconhecimento tardiamente, como vem acontecendo no território baiano.

Poucos sabem, mas antes de 2003, existiam grandes grupos de blues independentes na Bahia. Um bom exemplo disso foi a Vinil 69. A banda se apresentou em Vitória da Conquis-ta, divulgando ainda o primeiro trabalho, antes de encerrar as atividades por completo. Além de ter bons músicos, o grupo fazia o público dançar cantando trechos das canções Tremendo ao som de um blues e Dentro de você. Infelizmente, a falta de espaço no cenário baiano e a desintegração dos músicos fizeram com que a banda chegasse ao fim, antes mesmo de ser reconhecida.

Na época em que a Vinil 69 estava começando, algumas ferramentas de comunicação nem existiam, como o YouTube, Orkut, Myspace e Fotolog. Em entrevista para o site The Backstage, publicada em novembro de 2010, o vocalista comentou o assunto e a dificuldade de se sobressair no cenário brasileiro, mesmo com o surgimento de tais mecanismos, anos depois, auxiliando na divulgação do trabalho autoral:

“Em 2006, fechamos uma turnê por quatro capitais nordestinas (Aracaju, Recife, Natal e João Pessoa) sem dar um telefonema, só por e-mail e MSN”, disse Leandro Araújo e acrescenta: “o boca a boca continua a principal forma de divulgação (...) A maioria só baixa o seu disco se alguém falou bem, só paga pelo show se o amigo já viu e elogiou”.

Com o crescimento da música independente, outras bandas foram surgindo, mas são poucas que conseguiram se desvencilhar de um blues regado à bebida ou desilusões amorosas. Mesmo que a Vinil 69 tenha deixado grandes marcas no cenário baiano, no momento em que o axé mais roubava o foco, as letras não deixam de ser polêmicas. Versos como “e o calor em tua boca/ me dizendo que és louca/ e tem prazer em apanhar”, podem dar uma impressão bastante superficial de como a mulher é tratada, além de pouco abrir espaço para outros temas e estilos. É nesse sentido que, em contrapartida, se destacam duas bandas conquistenses, a começar pela Café Com Blues.

Formado em meados de 2005, o grupo continua, mas com algumas alterações, com a presença do vocalista Diro Oliveira (gaita e flautas), Thomaz oliveira e Lúcio Ferraz (guitarras), Luciano PP (baixo), Horton Macedo (sax tenor), Emílio Bazé (percussão), Abdalan da Gama e Daniel Novaes (trompete) e Paulo (trombone). No momento atual, a banda deixou de contar com a participação do guitarrista Júlio Caldas, que deixou o grupo em dezembro de 2014, para se dedicar a novos projetos. Além disso, houve a entrada de Eugênio Rocha, assumindo a bateria.*

Foi quase com essa formação que a Café Com Blues se tornou destaque em vários veículos de comunicação local e do estado, como o programa Aprovado, exibido em novembro de 2012, pela TV Bahia. Essa dinâmica foi tão forte que, atualmente, os músicos passaram a contar com a presença do ator e apresentador Jackson Costa, na própria formação. A Café Com Blues também foi a única banda conquistense a participar do palco principal do Festival de Inverno Bahia, em 2008, e, atualmente, vem divulgando o trabalho do segundo CD, O Sertão é o meu Certão, ainda sem data para lançamento.

O nome do grupo se deve ao fato de Vitória da Conquista ser considerada a cidade do café, além de fazer uma alusão ao café brasileiro feito na caatinga e o modo cordial em que oferecido “em toda casa que se entra”. Por isso, também, o título Tipo Exportação do primeiro disco, lançado em 2008. A banda costuma juntar elementos nordestinos com o blues norte-americano e tanto as letras quanto a sonoridade ganharam destaque no cenário baiano, como as faixas De repente um Blues e Blues na Caatingueira, as quais apresentam um caráter bastante repentista.

No sertão
Pé rachado caatingueira
Carcará
Quando é que vai chover?

No topo da serra, um murundú
A cerca a seca, demarcando a região
Uma paisagem bela no sertão
É onde nasce o improviso 
De um broto nasce um riso 
Flora no ser coração



15, 14, 13, 12, 11

10 e 9

Só faz lama quando chove
E enche o riacho Gramum

Pássaro preto é Anum
Que o bico trás o vinco
8, 7, 6 e 5
4, 3, 2 e 1

Na lua cheia uma paisagem prateada 
Mandacaru retém água pra viver
O solo seco é a riqueza dessa terra 
A vela, a reza para o que vem acontecer 

“Chuveu na cabiceira" Riachão 
É onde nasce o improviso
De um broto nasce um riso
Flora no seu coração


Em um comentário para o site Território da Música, postado no mesmo período, a autora Cátia Duchen, compara a sonoridade do grupo com um dos ícones do rock baiano: “são baianos, e não pude deixar de reparar numa certa semelhança com Raul Seixas. A ousadia nas misturas de ritmos e gêneros musicais realizada por Raul décadas atrás é vista agora na Café com Blues. Certamente que são estilos diferentes, mas causam o mesmo efeito de fascínio sobre as pessoas”.

Importante lembrar que juntar o rock e o blues com elementos nordestinos não é mais uma surpresa para o cenário independente brasileiro. Em Feira de Santana (BA), a banda Clube de Patifes se destacou no cenário por conseguir equilibrar o sofrimento da música afro-americana e o forró da música tradicional. Inclusive, foram chamados de “candomblues” pela canção Um dia blue, do disco Com Um Pouco Mais de Alma, lançado em 2010. O grupo também passou por Vitória da Conquista, participando de vários eventos, como o projeto Noites Fora do Eixo, Grito Rock (2010) e o Festival Suíça Bahiana (2011).

Embora, atualmente, a Café Com Blues conte com um estilo mais definido, com canções que remetem ao olhar sertanejo, ou à caatinga, algumas canções, presentes no primeiro álbum, contaram com outros temas, como a faixa Jornal da manhã. Versos como “os homens enchem as carteiras/ e eu aqui sem grana tomando o meu café da manhã” e “o papa beija o solo da terra/ e ainda não há paz entre as nações”, muito se adequam à realidade atual. Nesse sentido, destaca-se o terrorismo e guerras que vêm amedrontando diversos países, incluindo os EUA e a França, como o último atentado contra a imprensa local**, tema também presente na faixa Cultura. Mesmo não tratando sobre o caso, o autor atenta para a liberdade de expressão e aponta para a necessidade de valorizar as diferentes expressões artísticas e costumes, independente da origem.

Mas, ainda que o blues esteja bastante presente na banda, é com a Distintivo Blue que o gênero vem de forma mais intensa. O grupo surgiu em 2009 e, atualmente, segue formado por Lavus Bittencourt, (guitarra, violão), Rodrigo Bispo (contrabaixo), Nephtali Bittencourt (bateria) e o Plácido Oliveira (voz, gaita, violão, guitarra), mais conhecido como I. Malforea***. Este produz, compõe e gerencia o próprio site que está em constante movimento sobre as novidades vinculadas ao estilo.



* A formação atual da Café com Blues já mudou novamente, desde a composição do livro.
** Trata-se do ataque à revista sátira “Charlie Hebdo”, ocorrido na França, em janeiro de 2015.
*** A formação da Distintivo Blue também mudou desde a composição do livro.


Raquel Dantas nasceu em Vitória da Conquista-BA. Amante da música independente brasileira, conviveu desde cedo com vários artistas locais. Chegou a cursar Pedagogia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, mas acabou desistindo para se dedicar ao desenho e à escrita. Seu primeiro livro, A Conquista do Rock, lançado em maio 2017, já nasceu pioneiro ao registrar a história da música independente local.




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Sexta é dia de SPORT HOUSE!!!!
Com BLUES ao vivo ao som de Júlio Caldas Blues Trio!
Sexta - 18/08 -21h
O MELHOR DO BLUES!

Mais informações: clique aqui



Mais informações: clique aqui




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"Olá família! Orgulhosamente convidamos vocês para conhecerem o mais novo evento do Casarão de Itapuã: o "Blues Sessions Casarão"!

À partir do mês de agosto estaremos inaugurando um evento onde o guitarrista Julio Caldas convidará diversos artistas para uma noite de boa música, cerveja gelada e muito BLUES! Iniciaremos o evento às 20h. A entrada custa R$10. A casa possui local coberto e fica localizada próximo à Sereia de Itapuã. Venham conhecer o “Blues Sessions Casarão” com Julio Caldas e convidados. Esperamos por vocês! Em breve mais NOVIDADES!"

Serviço:
O que: Blues Sessions Casarão: Julio Caldas convida Breno Pádua e Malzer Blues
Quando: Hoje (11/08) às 20h
Onde: Casarão de Itapuã - Rua Engenheiro Aristides Milton, n° 25, Salvador-BA
Quanto: R$10,00
Mais informações: clique aqui





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Julio e Durval Caldas (Salvador-BA) tocam "Cachorro Urubu" em sua nova série de vídeos, o Especial Raul Seixas. Confira todos os vídeos AQUI.




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| A Café com Blues está de volta. Você estava lá? |
Thomaz Oliveira, Diro Oliveira e Fábio Santana. Foto: Marcelo Lopes
Há pouco tempo falamos sobre a Café com Blues, lamentando sobre seu hiato e disponibilizando seu único álbum para streaming (veja aqui). Pois bem, poucos dias depois de publicarmos esse texto, recebemos a ótima notícia de que a banda faria um show, que aconteceu no último sábado, 29 de outubro. A banda completara dez anos (passou voando!) e se apresentou na Feira de Flores de Holambra, evento anual, instalado sempre na famosa Praça do Gil (aos que não conhecem Vitória da Conquista, trata-se do dr. Gil Moreira, pai do Gilberto Gil, que morou nas redondezas).

O evento é uma miscelânea de atrações, a começar pela enorme variedade de plantas ornamentais e produtos relacionados à jardinagem, passando por culinária, esportes, atrações infantis e música, num palco montado num trecho interditado da rua. As apresentações se dão aos fins de semana e são abertas ao público. Boa parte da equipe da Café com Blues está por trás do evento, portanto esta foi uma oportunidade perfeita para presentear o público com esse show.

A banda sofreu alterações consideráveis desde o lançamento do primeiro disco: a saída do guitarrista Julio Caldas, indiscutivelmente um dos maiores da Bahia, exigiu uma grande repaginação, que já chamou a atenção por trazer à linha de frente o baterista Thomaz Oliveira. Músico, compositor, produtor e vocalista, possui trabalho solo, onde toca guitarra e canta. Na própria Café com Blues já assumia os vocais lá mesmo, da bateria. Agora surpreendeu a todos abandonando as baquetas, que davam uma assinatura marcante à sonoridade do grupo, sendo substituído por Juninho Andrade, que segurou muito bem o rojão.

Outra mudança foi a entrada do tecladista Fábio Santana, parceiro antigo do grupo, antes mesmo de ser fundado. Os diversos samples presentes nas canções já conhecidas também ficaram por sua conta. Além disso, seu papel foi importantíssimo por não termos, ao menos neste show, a presença do tradicional naipe de metais, que contava com músicos de apoio no trompete e trombone e o saxofonista/flautista goiano Horton Macedo, que não pôde se apresentar, devido a um recente acidente automobilístico, mas ainda assim, estava na plateia e subiu ao palco para agradecer e ser homenageado. Horton é motociclista e costuma cruzar o país sobre duas rodas. Esperamos de verdade que se recupere logo.

Luciano PP, Jackson Costa, Bazé e Diro Oliveira. Foto: Marcelo Lopes
A presença do ator Jackson Costa recitando poemas já não era novidade entre os fãs. Agora ele aparece como membro fixo da banda, inclusive no VT de apresentação e no flyer do show. É indiscutível sua habilidade de prender a atenção do público em suas intervenções, entre algumas músicas, com poesias dentro da temática defendida pelo grupo e, até mesmo, fazendo um duo de pandeiro com o percussionista Emílio Bazé. A união de música e poesia faz da apresentação da Café com Blues um verdadeiro espetáculo, que poucos artistas são capazes de sustentar.

A parte da banda que segue firme desde o início, sem mudar de lugar, traz o guitarrista Lucinho Ferraz, que agora também assume a viola caipira (antes por Julio), o grande baixista Luciano PP e o bandleader Diro Oliveira, gaitista, flautista e vocalista. Sua gaita agora é menos presente e sua flauta, ao menos nesta apresentação, fez as honras de seu instrumento principal, especialmente por dividir com Fábio os temas que antes eram executados pelos metais. Seu vocal também abandonou de vez os drives, característicos desde quando começou a se aventurar aos microfones, durante os tempos de MPBlues. Ao dividir os vocais com seu irmão Thomaz, percebe-se claramente a semelhança de timbres.

O repertório trouxe algumas novas canções, que sairão no segundo álbum do grupo. Conversando com alguns integrantes, percebi que já faziam aproximadamente dois anos desde a última apresentação, o que soa completamente absurdo tratando-se de uma banda de tal nível. Neste show percebe-se a inevitável "evolução" criativa que qualquer grupo ou artista solo sofre: a sonoridade da Café com Blues se distancia cada vez mais do blues e se aproxima a passos largos da música nordestina. Alguns temas me remeteram aos bons tempos de Elba Ramalho, Alceu Valença e ouvi pessoas da plateia explicando umas às outras que aquilo era uma "mistura de rock com forró". É assim que funciona: as pessoas são como as ondas de Tim Maia e não são obrigadas a fazer sempre as mesmas coisas. Nem deveriam sequer pensar nessa possibilidade.

Uma grande apresentação, bem diferente do que foi apresentado nos primeiros anos da banda, mas dez anos não são dez meses. A Café com Blues já atravessou uma geração e, esperamos, tem muita estrada pela frente. É sempre inspirador assistir a um show desses caras. Se você não estava lá, guarde bem um espaço na sua agenda para quando anunciarem o seguinte. No próximo domingo, encerrando o evento, teremos a Distintivo Blue, às 19h. Nos vemos lá.






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| "Tipo exportação" é a mais perfeita definição deste disco baiano |

A peculiar capa do disco, feita de juta, com letreiro em relevo
por I. Malforea
Falar deste disco é especial para mim: nos primórdios de minha carreira como músico existia uma banda de blues bastante conhecida, que eu ainda não tinha visto ao vivo, chamada MPBlues. Tocavam os standards do estilo, como qualquer banda no mundo, mas também faziam versões bluesy de músicas brasileiras. Chegaram até a gravar Tigresa e fazer um clipe. Tinham forte influência da Blues Etílicos (RJ) na sonoridade e na atitude. Eram tempos onde a internet era bastante precária e ainda recebíamos flashs animados por e-mail.

Na primeira vez em que os vi ao vivo, tocamos num evento público que acontecia todo ano aqui na cidade, o palco do rock na micareta. Eu, à frente da banda Tomarock, que tocava basicamente covers de rocks setentistas, como Led Zeppelin, Deep Purple e Steppenwolf, abri o evento. A MPBlues, tão falada por todos, fecharia o evento. Seria minha chance de vê-la. E assim foi: a primeira banda de blues que vi ao vivo na vida. Nessa ocasião, o gaitista Diro Oliveira chamou ao palco, para uma participação especial, o guitarrista Rômulo Fonseca. Antes, falou: "Rômulo está com uma banda para tocar rock n' roll e precisa de um vocalista. Se houver algum aí, entre em contato."

Resumindo, em pouco tempo eu era o vocalista da tal banda, estava ensaiando na casa desse gaitista e dividindo o palco com ele. A minha nova banda, The New Old Jam, passou a ser uma espécie de "irmã mais nova" da MPBlues. Onde uma tocava, sempre tinham participações especiais de membros da outra. Ambas fazendo covers. Eu era um garoto completamente verde e esses caras me mostraram o maravilhoso mundo dos palcos. O tempo passou, a MPBlues se tornou Café com Blues, e metade da The New Old Jam fundou a Distintivo Blue.

A Café com Blues já veio com uma proposta totalmente nova: músicas autorais, falando do cotidiano da zona rural da nossa região, o sudoeste da Bahia, que é riquíssima culturalmente. Não é à toa que o mestre Elomar se tornou uma lenda da world music, cantando este mesmo sertão. A formação da banda era praticamente a mesma da MPBlues e o cuidado que tinham com a proposta me inspirou bastante também. O trabalho era sério e conceitual.

Em 2008 o CD foi lançado, com um belíssimo trabalho gráfico: ao invés da tradicional e frágil capinha de acrílico, temos aqui um livreto, com capa bastante resistente, forrada com juta, aquele material usado para as sacas de café. Muito bonito e perfeito para a proposta. "Os Diros", como dizia uma amiga, também são ases na arte serigráfica, e imprimiram o logotipo da banda em relevo, com tinta emborrachada. A prova de que o trabalho foi muito bem feito é que meu CD ainda está praticamente novo, aqui em 2016.

No interior, um encarte de 32 páginas em papel reciclado, contendo as letras das músicas, reproduções de obras de artistas plásticos da região e textos de personalidades da cidade e amigos, como professores, jornalistas e pesquisadores. Após a última página está o disco, cujo espelho simula um disco de vinil. Realmente, só aí já temos um produto "tipo exportação".

Agora vamos às músicas: O disco abre com Blues na Caatingueira, autoria do baterista Thomaz Oliveira, que também era baterista da The New Old Jam, e autor de músicas que você conhece através da Distintivo Blue, como Na Trilha do Blues e De Cara no Blues. Esta é o que chamaríamos de música de trabalho do disco: ganhou videoclipe e foi bastante difundida, de acordo com as possibilidades. Confira aqui o clipe:


Lei Áurea, trata do fim da escravidão dos negros no Brasil e o problema que gerou ao "despejar" milhares de pessoas sem estrutura na sociedade do comércio. O fim da lei não significava uma vida digna, e assim nasceram as periferias do Brasil e sua gente marginalizada e esquecida pelo Estado. De Repente um Blues é uma ode aos repentistas sertanejos, verdadeiros mestres do improviso, tal qual os bluesmen e jazzistas do norte do continente. A ideia do paralelo entre o sul dos EUA e o nordeste do Brasil, aliás, está presente em todo o disco.

Cultura abraça e comemora a identidade brasileira e a liberdade de expressão, negando a ideia de que o sertanejo deve ter vergonha de sua realidade: deve sim ter orgulho! Um Sertão Belo conta o drama do caatingueiro que luta contra a seca para sobreviver, remetendo a Luiz Gonzaga. A esperança é, muitas vezes, o que mantém esse povo firme. A religiosidade típica dessas regiões também se mostra importante nesse quesito. Mudando de ângulo, Jornal da Manhã, de Paulo Macedo, músico e compositor consagrado e conhecido na região, já nos transporta ao ambiente urbano e as eternas más notícias que nos acostumamos a receber.

Navio Negreiro volta aos tempos do Brasil colônia, com a viagem sem volta dos negros vendidos como escravos pelos próprios africanos aos europeus (vale lembrar que a África sempre foi lar de centenas de etnias diferentes, onde não existia o conceito moderno de "união negra": qualquer estrangeiro – leia-se "não pertencente à aldeia" –  poderia ser feito escravo e vendido, e assim se deu). Do outro lado do oceano, no Brasil e nos EUA, a escravidão gerou gritos e canções de desabafo e tristeza, que se tornaram o blues e as diversas manifestações musicais ancestrais brasileiras, como o samba, por exemplo.

Umbluseiro no Sertão é uma declaração de amor a uma árvore típica da região: o umbuseiro. O umbu é abundante e perfeitamente integrado à culinária local. Nesta faixa temos a participação de mais artistas regionais, como Manno di Sousa, Walter Lajes e o grande Xangai, recitando trecho folclórico. Noel, do guitarrista Julio Caldas, é a única canção que foge da temática geral do disco, mas prepara o ouvinte para a faixa final, que celebra uma manifestação cultural típica da zona rural do sudoeste da Bahia, intimamente ligada à religiosidade, passada de geração a geração desde tempos remotos: o reisado. Para isso, participam da faixa, grupos de reis e mais artistas locais. Tudo isso ao som de pifes e gaita, zabumba e guitarras. Este é o Brasil.

Temos aqui um grande disco de música verdadeiramente brasileira. Claro, há aqueles que se queixam que não é blues, mas temos de ouvi-lo com a mente aberta: assim como existe Chuck Berry e o Sepultura no rock, existe Muddy Waters e Café com Blues no blues. Como sempre defendemos ao explicar nosso próprio trabalho, já existem centenas de músicos excelentes tocando o blues tradicional no Brasil. Por que precisamos de mais um "woke up this morning"?

Os puristas que me desculpem, mas não há razão para o blues, pai de estilos tão dinâmicos como o rock, o jazz, a soul music, se enterrar APENAS no tradicional. Claro, ele é necessário e deve ser protegido, mas há como o clássico conviver perfeitamente harmônico com o moderno. A música, felizmente, não é física, portanto, dois ou mais corpos ocupam o mesmo espaço. Em sua musicoteca pode sim haver vários estilos diferentes de blues. Aqui temos um legítimo disco de BRBlues, o blues autoral brasileiro, com características próprias, não se limitando a simplesmente copiar o blues americano, fazendo versões desajeitadas em português ou num inglês cheio de sotaque.

Falar do blues, sobretudo nacional, é o papel da BLUEZinada!, portanto seria impossível não falar da Café com Blues. Atualmente a banda está praticamente desativada, com apresentações cada vez mais raras. A formação já mudou consideravelmente desde o primeiro disco, mas já há várias canções novas para um segundo, já prometido, inclusive com a participação do ator Jackson Costa recitando poemas, aproximando o grupo cada vez mais da música regional e se distanciando do blues.

Se, quando do lançamento do disco, a banda possuía um website bastante interessante, agora é tarefa difícil encontrar material em boas condições na internet. Esta foi minha grande dificuldade ao tentar abordar a banda no site. Então, tive a ideia de entrar em contato com o próprio Diro e pedir autorização para postar o disco de forma profissional nas principais plataformas de streaming. Com muita alegria, recebi um "sim" como resposta e, finalmente, aqui está o disco da Café com Blues eternizado na web. Como historiador de formação, músico do BRBlues e amigo da banda, fico muito satisfeito de ter recebido esse "poder" de levar adiante esse trabalho tão caprichado e sincero.

Os fonogramas vieram do meu próprio CD e a foto da capa é a foto do meu disco. Felizmente todas as músicas já tinham seus ISRC, o que facilitou bastante: se eu tivesse de gerar esses códigos, eu seria inevitavelmente creditado como produtor, e não é essa a minha intenção. Disponibilizei o disco apenas em plataformas onde você não precise pagar por ele. Mesmo na ONErpm, a minha distribuidora, que possui uma loja virtual para downloads, o disco é gratuito. Não sei se a banda retornará suas atividades um dia, com direito a site atualizado, perfis ativos nas redes sociais, etc, mas me certificarei de que não seja esquecida e continue disponível online enquanto isso não acontecer. Senhoras e senhores, com prazer, apresento-lhes a banda Café com Blues!



Formação no disco:
Diro Oliveira - vocal, flautas e gaitas
Júlio Caldas - vocal, guitarras e violas
Thomaz Oliveira - vocal bateria
Lúcio Ferraz - guitarras e violões
Luciano PP - baixo
Horton Macedo - sax e flautas

Banda de apoio:
Paulinho do Trombone - trombone
Daniel Novaes - trompete
Bazé - percussões

Participações:
Tança da Gameleira
Xangai
João Omar
Otavio Castro
Bule-Bule
Antônio Queiroz
Seu Raimundo Ribeiro
Sinval Andrade
Grupo Os Três Reis Magos
Cláudia Rizo
Manno di Sousa
Walter Lajes
Dahora

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